Compromise 101

Sonhar é muita fácil não é? Imaginámos um cenário qualquer, ou como gostávamos que a nossa vida fosse daqui a 20 anos, damos largas à imaginação, e voilá! Tá feito, não tem nada que saber e a dificuldade é zero! Dizemos aos amigos aquilo que imaginámos para nós ou o rumo que queremos que a nossa vida tome, os nossos objectivos a curto, médio e longo prazo, e tentamos convênce-los de que os nossos sonhos não é assim tão inatingiveis e que as coisas ate vão bem encaminhadas. E quando a nossa vida não se desenrola de acordo com o que sonhamos, bem, melhor ainda! Ou pelo menos é a ideia que todos aqueles que viram os sonhos que andavam a apregoar a meio mundo sair furados nos andam a tentar vender, em como ver o sonho duma vida desfeito em cacos, foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Fascinante!

Ia começar pela Liliana mas a Liliana vai ter de esperar porque um outro valor mais alto se alevanta!

São de longe o meu casal preferido pelo ridículo daquela relação, vamos chamar-lhes a Tânia e o Velmo, para preservar o seu anonimato. O Velmo é um granda falhado, não há volta a dar-lhe e ao fim do dia é importante chamar as coisas pelos nomes. Mas claro que o Velmo, pois então, o Velmo acha que não é culpa dele, e o universo não passa duma enorme conspiração para lhe arruinar a vida. Pobre Velmo não conseguiu entrar para o curso que queria porque, e cito "é impossível entrar para o curso que se quer porque as médias são altíssimas", o que o Velmo não percebe, é que a razão pela qual as médias são altíssimas, porque graças a Deus, há gente mais inteligente, mais esforçada ou mais dedicada que ele, que lutaram por aquilo que queriam, e como tal, esforçaram-se para ter uma boa média para entrarem para o curso que gostavam. O Velmo não vê isso, e de costas voltadas ao sistema, vê-se obrigado a entrar para uma Engenharia Electrotecni..nguem quer saber na Universidade do Algarve e surpresa das surpresas, e não o consegue acabar, porque e cito "é um curso impossível de acabar, e as cadeiras impossíveis de fazer" sem dar conta que se calhar só é impossível para ele que está longe de ser o expoente máximo da raça humana.

Mas aos olhos do Velmo, é Portugal que anda a ver se dá cabo dele, e se ele está obviamente certo e Portugal errado, e ele não vai mudar, tem de mudar-se, e isto é comum neste tipo de gente, desenvolver desde tenra idade um fascínio pelos Estados Unidos, já que tudo o que ele é não chegou para vingar no pais de origem. Mas a culpa não é dele, é o ser de todo impossível vingar em Portugal, ou na Europa, e qualquer historia de sucesso são a excepção que confirma a regra, uma aberração da natureza ou puro golpe de sorte. A única coisa para que Portugal serve, é para puxar galões na hereditariedade Europeia de que gosta de se gabar, sem o coitado perceber que a razão pela qual é Europeu, foi por ter nascido em Portugal, e so é uma porque é a outra, e não se pode ser só uma, já que as duas são indissociáveis uma da outra!

Quem é que está à espera do lado de lado do mundo? A Tânia, cujos pais há 20 anos, fizeram exactamente a mesma coisa, foram para os Estados Unidos à procura duma vida melhor que aquela que conseguiram para eles em Portugal, mas com uma diferença fundamental, humildade aos montes! Sem rancor nem um dedo rápido no gatilho quando toca de dizer mal do sitio onde nasceram, tanto que sonham para a filha, um marido português, que a mantenha em contacto com tudo aquilo que eles deixaram para trás. Ora bem, junta-se a fome à vontade de comer, e o Velmo conhece a Tânia, começam a namorar, e num gesto de puro *cof* romantismo *cof*, ele decide ir para os Estados Unidos ter com ela, e mudar-se para a casa dela, e por dela, leia-se, dos pais onde ela ainda mora.

Nos primeiros tempos, o Velmo não faz nada, e é um caso de sucesso tão estrondoso nos Estados Unidos como o que era em Portugal, e se o pais agora é outro, conseguem ver a constante? Eu consigo!

Mas isto tudo é contextualização, esta é a parte que importa! Eventualmente o visto provisório do Velmo vai expirar, e Deus proíba que ele tenha de voltar para o caso perdido que é Portugal. Depois de ter tentado por todos os meios renovar o visto, mas ouvi dizer que é preciso ser a entidade empregadora que faz questão de não o perder como trabalhador a tratar disso, é natural que as coisas se tenham complicado para o Velmo, mas ele é um tipo cheio de recursos, aliás, ele leu o Segredo, logo o mundo não lhe reserva mais nenhum.

Num rasgo de génio, e mais uma vez, motivado pela mais pura noção de romance, que reconhecemos dos filmes lamechas das tardes de chuva enrolados na manta em cima do sofá, *cof* *cof*, também ele enrolado numa manta em cima do sofá cama na cave da casa dos pais da namorada, onde sim, ele um ano mais tarde ainda mora, entre uma explosão e outra do filme sacado da Internet na noite anterior, ele vira-se para a Tânia e diz "tava aqui a pensar se não querias casar comigo" e entre um mergulho e outro da mão dela no balde das pipocas, ela diz que sim, e na televisão explode outra coisa qualquer.

E agora a parte gira que motivou tudo isto para ver se chegamos à parte da Liliana.

Passados uns tempo, muito pouco tempo depois eles casaram para o Velmo e a Tânia poderem ficar juntos, porque o amor é lindo, ou se calhar para o ver se o Velmo não era corrido do pais pelos serviços de imigração, mas isso sou só eu que sou um cínico nestas coisas de amor e acredito piamente que o romance está morto, e foi o Rock & Roll que o matou.

Um ano depois, estamos todos sentados num Starbucks a vê-los tentar vender-nos a ideia de que o casamento é só um papel, que não significa nada e que não tem qualquer impacto na nossa vida, para lá do, deixar-nos ficar no pais da miúda com quem casamos, essa sim é a parte que importa, tudo resto, como luas-de-mel e bodas de prata e de ouro e o vestido de noiva dos sonhos dela, são coisas de gente desligada da realidade e com noções ultrapassadas de romance, porque eles é que sabem!

... e sabem que mais? Pois sabem! Porque só se vive uma vez, e eles precisam de acreditar piamente em toda aquela conversa de chácha para conseguirem continuar a ser medianamente felizes na vidinha que levam. Pobres deles se vissem, ou melhor, se tivessem continuado a ver o casamento por tudo aquilo que ele é suposto representar e o impacto que tem na nossa vida, em vez de uma maneira de contornar o sistema para que ele não fosse deportado. A parte chata é a Tânia que vive sem saber se o marido casou com ela por amor, ou por conveniência, ou pior que isso, é até saber e não gostar da resposta que encontra. Pior ainda quando à mesa do jantar, vê o marido dizer de peito cheio "Eu queria vir para o Estados Unidos, e arranjei maneira de conseguir!". Ouch! Claro que o que ele quer dizer é que foi por amor, que é uma coisa linda, e que o casamento é só um papel que não importa nada, que remédio né, mal deles se importasse, mas meus amigos, "whatever gets you through the night"! (;

E agora a Liliana, em quem eu acabei de descarregar há umas horinhas atrás e que mereceu cada palavra do que acabou de ouvir.

Desde as ultimas vezes que saiamos juntos que eu ouvia Liliana a falar com um brilhozinho nos olhos e uma tremura da voz da ambição com contornos de sonho que era comprar a casinha dela com vista pá baía do seixal! Ficar perto do trabalho, e sentar-se no parapeito da janela com uma chávena de chá a ver a lua reflectir na água. E sejamos sinceros, quando a casa dos nossos sonhos tem vista pá baía do Seixal, até não estamos a sonhar muito alto.

Hoje, finalmente a Liliana contava-me o quanto entusiasmada estava por ter finalmente conseguido a casa dos seus sonhos, a excitação por detrás de cada coisinha que comprava, as borboletas na barriga com o enxoval, e a contagem decrescente até ao dia de S. Receber para uma tarde em cheio no IKEA. Contava-me em como a casa de banho ia ser um sonho, e o quão desejosa estava de comprar o quarto, e tornar cada cantinho da casa dela na Moita, A-D-O-R-Á-V-E-L-!-.

... esperem? Eu disse Moita?

Disse Moita sim! Lembram-se da casa dos sonhos da Liliana? Aquela de há dois parágrafos acima tinha vista para a baía do Seixal e da janela se via a lua reflectida na água? Pois, afinal não é no Seixal e diz que não há água por perto. Afinal era Moita, a Liliana é que não sabia. Ela achava que era no Seixal, mas isso era só porque ela estava confusa. Ficar perto do trabalho? Era confusão também, o que ela queria dizer era ficar perto dos pais! Porque a Moita tá só a 10 minutos, e o Seixal... bem... a uns bons 12, e com o universo a expandir-se, sabe-se lá onde é que ele não vai parar! Mas esperem, há melhor ainda, fica só a 1 minutos DO ginásio! Sim, DO, e não DUM, porque é o tal, o ginásio de todos ouvimos falar e nunca conseguimos encontrar, o mito, o unicórnio dos ginásios, o único de Portugal. Há-de o inferno gelar antes do Seixal ter um ginásio também.

E sabem que mais, não me incomoda nada. Tiveram de casar para o Velmo não ser deportado? Epah, o que tem de ser tem muita força, e pelos vistos teve de ser. Querias comprar uma casa no Seixal e por força das circunstâncias tiveste de alugar uma outra na Moita? Epah paciência, baby steps, acho óptimo que estejas entusiasmada com a casa nova, mas poupem-me os póneis e os arco-íris, a chuva de chupa-chupas e nuvens de algodão doce, e deixem de tentar convencer-me que afinal este é que sempre foi o vosso sonho de criança porque sabemos os dois, ou os quatro, bem melhor que isso, e a minha tolerância para hipocrisia é zero!

Se querem saber a verdade, até vos invejo! Invejo essa vossa capacidade abdicar daquilo que sonharam, daquilo que VERDADEIRAMENTE SONHARAM, à troca da óbvia atracção pelo caminho que oferecia menos resistência. Adorava ser assim, mas sou parvo, insisto em querer para mim a vida que eu acho que mereço, a vida com que sonhei e me recuso a abrir mão, e puto, se eu sonho alto! Era tão mais fácil acordar um dia e dar conta que afinal o emprego dos meus sonhos é ser caixa do Modelo, e o amor da minha vida é aquela miúda de quem eu nunca gostei mas que sempre gostou de mim (desculpa lá Helena). Era tão fácil, se querem saber a verdade, até já tentei, mas não consigo, e não só vos admiro por conseguirem, como vos saluto pela facilidade com que o conseguem! Imagino que não deva ser fácil vergar o nosso desejo até ele caber no molde de seja aquilo que for que apareceu pelo caminho, e convencer-mo-nos a nós mesmo que foi isto que quisemos o tempo todo? Quanto tempo é que precisam de ficar sentadas no escuro e dizer a vocês mesmas - "Sempre quis morar na Moita!", "Sempre quis morar na Moita!", "O Casamento é só um papel!", "O casamento é só um papel!" ... até começarem efectivamente a acreditar no monte de conversa fiada que se impingem? Sério, adora umas instruções!

Até digo mais, estou genuinamente feliz pela Liliana e pela sua casa nova, e ainda acrescento que tenho a certezinha absoluta, que logo logo, vai encontrar o rapaz dos seus sonhos, alto, esbelto com um corpo em 'V', bem-sucedido, carinhoso, que guia um todo-o-terreno e adora desportos ao ar livre! Ou se calhar conhece só um tipo qualquer que não é nada daquilo que ela imaginou, mas que é conveniente, e que ajuda nas contas da casa, e porque verdade seja dita, andar de camisa de flanela aos quadrados e pertencer aos forcados da Moita, também tem o seu encanto.
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