A Promise Made, A Promise Kept

Conhecemo-nos 3 dias depois de eu chegar a Washington, dia 8 de Setembro de 2009 na manhã de uma Terça-feira, conseguia ate dizer-vos a hora, mas pouco importa. Estavam todos os estagiários juntos para a apresentação, e entre eles, ela. Gostava de vos dizer que me chamou a atenção desde o momento que a vi, mas não é verdade, ou não tão verdade quanto o contrário, sei que ela gostou de mim desde que me viu entrar pela porta.

Almoçámos todos juntos nesse dia, almoçámos todos juntos o dia seguinte no terraço do Hall of State. Ela pediu-me para lhe dizer qualquer coisa em português e eu recitei um poema de Miguel Torga. Mais tarde voltámos ao trabalho e ela escreveu-me a pedir para traduzir fosse o que fosse que lhe tinha dito "in my devil speaking language", eu disse. A esse mail seguiram-se outros 737 ao longo de 3 meses, mas isso é adiantarmo-nos na história.

As primeiras semanas foram passadas a tratar do apartamento, a alugar mobílias ou a tentar ultrapassar/contornar todos os problemas que iam aparecendo pelo caminho, e ela, que não fazia questão de voltar para o quarto que dividia com a Kelly Miller, no 3° andar do numero 208 de Massachusetts Avenue, ia comigo, e eu agradecia pagando as bebidas na happy hour, no bar meticulosamente escolhido 10 minutos antes de sairmos do escritório. Caipirinhas em Chinatown, Margaritas em Dupond Circle, e entre umas e outras eu ia gostando mais dela, e ela apesar dos meus "double dips", quero acreditar que ela também, gostando mais de mim.

Passávamos as noites a trocar enormes mensagens no facebook que maior parte das vezes tinham de ser divididas por partes por serem demasiado longas para ser enviadas, escrevíamos um para o outro bem para la da hora de deitar, e combinávamos encontrar-nos no escritório dali a poucas horas junto à maquina do chá, e nunca estávamos muito tempo sem saber um do outro. Depois do English Breakfast Tea, trocávamos email até à hora de almoço, almoçávamos juntos, e voltávamos a trocar mensagens ate eu arranjava uma qualquer desculpa para passar pela secretária dela, nem que a desculpa fosse entregar-lhe uma Zebra para colorir porque ela dizia estar aborrecida, ela respondia com, "Zebras are already black and white, thank you genius!" e eu corrigia o meu erro com um cisne para colorir. E assim eram as nossas tardes até ser altura de sair, encontrávamo-nos na recepção, e descíamos juntos no elevador para outra happy hour num canto qualquer da cidade, eu de fato e gravata, ela de vestido e saltos altos, a fazer de conta que éramos crescidos.

Depois de duas semanas de tardes assim, depois de uma desculpa qualquer para passar a tarde com ela, levava-a a casa, que é como dizer que acompanhava-a ate ao prédio dela, para ter a certeza que ela entrava no prédio antes de voltar para o metro que me levava para Bethesda. Nessa noite, antes de me deixar ir embora, perguntou-me o que é que eu esperava dela, porque se era amigos que íamos ser, ela não podia alimentar por mais um minuto que fosse a ideia de nós os dois juntos, e precisava saber o que ia ser de nós. Eu meti o braço à volta da cintura dela, puxei-a de encontro a mim e beijei-a. Depois disse-lhe que não tinha a certeza se aquilo servia de resposta à pergunta dela, até porque em conversa já me tinha dito o quão importante o primeiro beijo era para o futuro das relações. Ela retorquiu "that did not break the deal!" enquanto atirava os braços à volta do meu pescoço e me beijava de volta. Não nos preocupámos em oficializar o namoro, mas daí em diante, tanto quanto queríamos saber, foi nesse dia que começou, dia 22 de Setembro, outra terça-feira, 2 semanas depois de nos termos conhecido.

Outras duas semanas depois, no dia 6 de Outubro do ano passado, há precisamente um ano atrás, o apartamento 412 do número 35 da rua "E" ficou disponível, e comigo desejoso de ter o meu apartamento, e com ela desejosa de se livrar da roommate, fomos morar juntos. A entrega das mobílias ficou marcada para o dia seguinte, mas assim que tivemos um sitio onde ficar os dois, já nenhum de nós quis sair. Há precisamente um ano atrás, estava sentado no chão do meu, desculpa querida, do nosso apartamento, a vê-la dormir no chão enrolada no meu edredon. Abri o computador e mandei-lhe uma mensagem enquanto a via dormir, na mensagem dizia -

"José Risques, 6 de Outubro de 2009 às 0:00

This is going to sound strange... but anyway.

You're here, lying asleep next to me while I write you this, I should wake you up and walk you home but I don’t have it in me to do it, you're the most beautiful thing I've seen, you look like an angel, wrapped like a burrito in my white fluffy conforter on the floor of my empty apartment, and maybe thats why I don’t want to wake you up, because I don't want you to leave, not now, not ever. I don’t want this night to be over. Sure, there will be other nights, I know, but not like this one, not again, you'll never look more beautiful and nothing will ever be as perfect as right now, with me sitting on the floor of my empty apartment with my back against the wall and my computer on my lap, watching you sleep. This is my memory, the one I'll keep with me for the years to come. Whatever happens next, this night will last forever.

... It’s 0.00, I'm going to wake you up now.

Love you.

Ze"


Carreguei em enviar, acordei-a e levei-a a casa. Depois dessa noite, nunca mais deixámos o nosso apartamento.

Eventualmente as saudades começaram a levar a melhor de mim e comecei a pensar no que era que eu realmente queria, e a verdade é que maior parte do tempo era voltar para casa, e não os Estados Unidos, e se não os queria na minha vida, não era justo, prendê-la a ela, a uma vida que eu não queria ter, ou a mim, a algo que eu sabia que não ia durar.

Ás vezes ia sair, e ela ficava em casa. No regresso a casa, alguma miúda se metia comigo no metro, e perguntava-me de onde ao ouvir-me falar com pronuncia, se eu não queria que ela voltasse para casa comigo, ou se não lhe dava o meu numero para nos encontrarmos durante a semana. E eu pensava na minha namorada, à minha espera no nosso apartamento, a namorada que eu tinha, na vida que não queria ter, e que devia era aproveitar ao máximo o meu tempo em D.C. e não me prender a algo que eu sabia agora não querer, e não era não a querer a ela, o problema nunca foi ela, o meu amor, era o egoísmo de querer aproveitar ao máximo o meu tempo em D.C. mesmo que isso significasse, levar para a cama miúdas que não me diziam nada, só porque aparentemente podia. Era a ideia de que para ficarmos juntos, a tinha de privar da vida que ela adorava, para uma outra que ela não queria ter, a minha, e "A bird may love a fish, but where would they live?"

Voltava para casa, e dizia-lhe que não estava a funcionar, que não estava a dar certo para mim, que queria acabar! E ela, o meu amor, pedia-me a chorar para não dizer isso, avisava-me que eram só as saudades de casa a falar e que eu não sentia nada daquilo que dizia. Pedia-me para pensar enquanto eu dormir, e ela, o meu bem, adormecia a chorar.

Na manhã seguinte acordava, olhava para ela a dormir ao meu lado, e passavam-me todas as saudades de casa, o meu anjo, acordava-a com um beijo, pedia-lhe desculpa e para compreender, que eu nunca tinha estado tão longe, e tão longe durante tanto tempo, e que custa e que eu estava a tentar lidar com tudo o melhor que eu sabia, e que às vezes não chegava. Houve mais noites assim, mas ela nunca desistiu de mim, e ficamos juntos até ao fim.

Moramos juntos 3 meses, e sim, as probabilidades estiveram sempre contra nós, não podíamos ser mais diferentes. Eu, um rapaz de Lisboa, a maior cidade do país mais ocidental da Europa, ela, uma rapariga de Logansport, uma terrinha no meio do Indiana no Mid-West dos Estados Unidos, com 7 anos de diferença que se conheciam há um apenas mês, a viverem juntos num estúdio com 20 metros quadrados, a trabalharem juntos, a almoçarem juntos, a jantarem juntos, a dormirem juntos, parece juntar todos os ingredientes de um desastre, mas não foi, e quando Dezembro chegou e cada um teve de voltar para a sua casa, em continentes diferentes, em lados opostos do mundo, nenhum dos dois quis que o nosso namoro acabasse, ainda que todos dissessem desde o início que a distância certificar-se-ia de que nunca ia dar certo.

E não era o fim, ela tinha sido aceite para um semestre na Universidade de Kent, em Canterbury, no Reino Unido, e se um oceano não chegava para se meter no meio do nosso amor, não iam ser 4 países que o iam fazer.

Estava desejoso de voltar para casa, matar saudades de tudo, e de todos, de Lisboa, dos amigos, das amigas, que vistas à distância confundi com amores mas que de volta a Portugal percebi que foram amigas o tempo todo, e na rotina dos dias, as saudades passaram, e a minha vida voltou ao normal, e as saudades que eu tinha, era de tudo aquilo que de anormal a minha vida tinha, tudo aquilo que a tornava interessante, e no cimo dessa lista, a minha namorada americana, tão diferente de todas as outra raparigas que eu conhecia.

Passei os dias desejoso que ela chegasse, tinha a passagem para Lisboa comprada à meses, e uma semana em Lisboa antes de voar para Londres, mas quando chegou, não era só o continente que era outro, ela estava diferente e as coisas não foram mais o mesmo. Uma semana depois voou para Londres, e duas semanas mais tarde, mandou-me uma mensagem a acabar comigo. Na mensagem dizia que tinha percebido que nunca havíamos de ser felizes a longo prazo. Que sabia o quanto eu não queria os Estados Unidos na minha vida, e que a imaginar uma vida comigo, tinha de abdicar da dela, e que este tempo em casa lhe tinha mostrado que nunca ia ser capaz de deixar para trás a vida dela.

Falamos os dois, e as coisas resolveram-se e continuamos juntos, e uma semana mais tarde, ela volta a querer acabar comigo, tal como das outras vezes em que eu queria acabar com ela, e que ela nunca deixou. E eu resolvi não deixar também. Voei para Londres para ir ter com ela, mesmo depois de todas as vezes que ela me disse para não ir, eu fui, porque também eu já tinha tido a certeza que não a queria na minha vida, e foi só quando voltei para a vida que tinha sem ela, que dei conta da falta que ela fazia.

Era um Sábado o dia em que fui ter com ela, e tentar reconquistar a minha ex-namorada, que jurava a pés juntos que não me queria voltar a ver. Acabei por ficar um mês com ela, e voltou a ser tudo como dantes, do acordar juntos ao almoçar juntos, ao jantar juntos e mais tarde adormecer lado a lado. Engoli todo o meu orgulho em nome do amor que lhe tinha, e porque sabia que quando a situação era a inversa, quando era eu a querer voltar para casa, ela nunca desistiu de mim, e que o mínimo que eu podia fazer, era não desistir dela também.

Um mês depois voltei para Portugal, e deixei-a Kent, e com uma certeza quase matemática, argumentando com as mesmíssimas palavras com que eu argumentava em D.C. queria acabar comigo outra vez. Percebi que a grande diferença entre o que tinha acontecido comigo, e o que estava a acontecer com ela, era que sempre que eu queria acabar, ela estava ao meu lado para não deixar, e que agora que ela queria acabar comigo, eu estava a 4 países de distancia. Ainda consegui fazê-la mudar de ideias da vez que estive lá para ela, como ela antes tinha estado para mim, mas não podia estar lá sempre.

Não havia então nada a fazer enquanto ela não voltasse para casa. Foi só depois de tirar as saudades de equação, que eu consegui ver a falta que ela me fazia, e resolvi fazer o mesmo por ela, mentira, por nós, ou se calhar só por mim, que morro só de me imaginar sem ela. Comecei a procurar uma maneira de voltar para os Estados Unidos, depois de ela voltar para casa, para poder estar por perto, quando as saudades de casa lhe passassem. Ela soube que eu vinha, e disse tudo aquilo que se lembrou para tentar fazer com que eu não viesse, coisas que doeram ouvir, mas que não bastaram para me dissuadir, ela nunca desistiu de mim, e Deus me livre se eu ia desistir dela.

Disse-lhe para não se preocupar comigo, que podia voltar para casa e para a vida dela e fazer de conta que eu nunca tinha feito parte dela, que eu não a ia incomodar de maneira nenhuma, mas que precisava saber que o que lhe estava a acontecer a ela, não era o que me tinha acontecido a mim, e não eram só as saudades a falar mais alto e a fazer-nos dizer coisas que não sentíamos, e se estar aqui, a 40km's dela, não mudasse nada, então eu ia saber que ela tinha razão, que não foram as saudades que mataram o nosso amor, foi ele que simplesmente morreu. Ela estava certa, eu estava errado, agora sei.

Prometi-lhe que ia estar aqui, bem pertinho dela, quando fizesse um ano do dia em que nós nos conhecemos, que ia estar aqui, mesmo ao lado, quando fizesse um ano do dia em que nos beijamos, que ia estar aqui, a escrever para ela outra vez, um ano depois, tal como escrevi para ela, enquanto a via dormir no chão do nosso apartamento, e estou.

Se calhar não é por ela, que aqui estou, se calhar é por mim, que vivia com o peso de consciência por não ter sido inteligente o suficiente para gerir as saudades, e ter prejudicado o meu namoro com alguém que merecia mais de mim. Se calhar estou aqui, pelo sentimento de culpa de não ter sido o melhor namorado que podia ter sido, o namorado que ela tinha merecido, mesmo quando ela dizia que tinha o melhor namorado do mundo. Aos meus olhos tinha de a compensar por todas as vezes que errei, e saber que fiz mais e fui mais longe para lhe mostrar que a queria, que as vezes em que lhe disse o contrário. Mas estou aqui, tal como prometi, ilibado de qualquer mal que lhe fiz, a 7000 km de casa, a 40 km dela. Ando há 10 meses a tentar compensar, o punhado de vezes que errei nos 3 meses de há um ano atrás, e pouco importa se ela foi tão pior para mim quando as saudades lhe tocaram a ela, é comigo que eu tenho de viver.

Se estão a pensar se fez diferença, se voltamos a estar juntos? Não, não voltámos, não a voltei a ver, eles tinham razão, não deu certo, tal como eles disseram que não ia dar. Se calhar a surpresa maior foi o ter durando o tempo que durou ao invés de como acabou. Mas não foi pela distância, nunca foi pela distância, tanto que um ano depois, eu ainda estou aqui, tal como prometi.



I told you I'd follow you to end of the world; I said I'd wait for you; I told you I'd love you forever... Would I lie to you?

For Lacey Berkshire, a minha rendinha. Sempre!
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