As Noites de Swing!

Acho que foi a Jaquelyn Kennedy que disse era "uma optimista realista" e é assim que eu me sinto em relação a isto, à ideia de morrer e do que vem depois. A parte optimista de mim quer acreditar que há garantidamente um céu e um inferno, e que eu fiz mais que o suficiente para ir directamente para o primeiro, sem passar pela casa partida ou receber dois contos, a parte realista, acha a metafísica da coisa demasiado rebuscada para ser provável, e posso até nem acreditar no céu ou no inferno, mas acredita nas noites do Swing.

Estava a ler um estudo da Universidade George Washington, que acompanhou doentes terminais monitorizando-lhes a sua actividade cerebral, e era frequente um registar-se um aumento na actividade nas ondas cerebrais dos dos pacientes instantes destes falecerem. Provavelmente há explicação científica para isto, que resulta daqueles experiências próximas de morte, em que juramos ver a vida inteira passar-nos diante dos olhos, mas eu quero acreditar em mais qualquer coisa.

Se calhar é isso que acontece, ou aquilo a que a minha parte optimista quer acreditar e se gosta de agarrar. Provas documentadas, estudos realizados e milhões de testemunhos desde o início dos tempo de que antes de morrermos a vida inteira no passa diante dos olhos. Se calhar é esse o pico, o cérebro a tatuar-nos na mente tudo aquilo que a nossa vida foi, todas as recordações recalcadas, o acumular de experiências, momentos situações que nos fomos esquecendo mas que ficaram arquivados em seja qual for a percentagem do cérebro que não usamos, se calhar nunca foi suposto ser usada, quem sabe não é para isso mesmo que ela serve, uma arrecadação enorme onde nunca nada é deitado fora.

Sabem quando tentamos mudar de canal, carregamos no botão do telecomando e a televisão diz que o telecomando não tem pilhas? É mais ou menos isso, pelos vistos tem pilhas que chegue para fazer a mensagem chegar à televisão, só não tem pilhas que chegue para fazer a televisão mudar de canal, e é o que eu quero acreditar que acontece, é assim que eu imagino o meu céu e ao mesmo tempo, o meu inferno. Não temos mais pilhas para fazer nada nem criar nada de novo, resta apenas a energia suficiente, para rebobinar até onde quisermos, saltar anos como se fossem capítulos, deixar em loop a noite em que perdemos a virgindade, ou que juntamos a coragem para beijar a miúda gira do preparatório, coisas parvas que olhando em retrospectiva depois e ela acabar foram os momentos mais felizes da nossa vida.

É esse o contra, desculpem, odeio ser o portador de más notícias, mas levamos só aquilo que trazemos dentro de nós. Se nunca meteste o pé no mar das Caraíbas, não vais lá poder ir no teu céu, não há uma recordação para a qual saltar. Se nunca viste as pirâmides de Gize a mesma coisa. As boas notícias é que se estão a ler isto, não é tarde de mais para criar os momentos que vão querer reviver mais logo. Se em por outro lado tiveres sido uma má pessoa, infeliz e toda a tua vida se resumir a experiências desagradáveis, é com isso que tens de lidar para a eternidade, sem nenhuma recordação boa à qual te agarrares, e isso soa-me a uma muito fidedigna definição de "Inferno".

Tenho alguns infernos com que vou ter de lidar, algumas noites de choro e o coração destroçado mais vezes que me consigo lembrar agora, mas que vou certamente recordar-me mais tarde. Sei também qual é o meu céu, os capítulos do filme que foi a minha vida, nos quais vou ficar até o disco riscar. A primeira vez que dei à chave do meu carro novo e o guiei para fora do stand, a primeira vez que fiz amor com todas as minhas ex-namoradas, e os primeiros beijos, os meses do nosso apartamento em D.C., a noite de fados com a Fernanda e o Rui Veloso, a noite nos baloiços com a Regan debaixo do céu estrelado do Indiana, a ultima vez que vi a avó Custódia, todos os almoços com a avó Nita, o Avó Risques a refilar connosco do canto dele no sofá da sala da casa de Benfica ou ouvir-nos roubar rebuçados do móvel da entrada, os figos da casa de Vendas Novas, os verões na casa do Algarve...

... o “Swing”, tive dias a tentar lembrar-me do nome, já passaram por certo uns 10 anos desde que fechou, ficava no fundo da Miguel Pais, do lado direito, mesmo antes de chegar à igreja. Fechava às duas para toda a gente, um bocadinho mais tarde para nós, que esperávamos encostados ao carro a galar as miúdas giras que saiam do Camarro quando ele fechava. Daí seguíamos para o Swing já fechado, batíamos, e a dona cujo nome já não me consegui lembrar, vinha-nos abrir a porta. Já ao balcão perguntava-me se para mim era o "habitual" e eu dizia sempre que sim, ás vezes apetecia-me outra coisa, mas mesmo que soubessem melhor, nada me soava tão bem como "o habitual?" e acabava por comer sempre o mesmo. Ficávamos no Swing horas a fio pela noite dentro todos na conversa, eu, o Fatty, o Kappa, o BB, os outros todos, já não sei ou não me dou com metade deles, mas vão estar lá todos, todas as noites, no Swing, o meu céu, comigo a comer o habitual, mesmo que eu não queira, mas não tenho recordações de outra coisa.

Para o Fatty, o meu melhor amigo, que não tem tantos posts dedicados a ele quanto aqueles que ele merecia.
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