I'll Make a Beautiful Kingdom Out of My Suckiness and Misery and Wounds.

Arranjei um trabalho em Washington para ir atrás duma miúda que nunca voltei a ver. Fui trabalhar para o Indiana para reconquistar a minha ex-namorada que não queria mais saber de mim, e pelo caminho trabalhei para quatro canais de televisão, duas estações de radio, uma organização não-governamental sem fins lucrativos e uma das melhores faculdades do mundo, tudo porque me partiram o coração, conseguem ver o padrão?

Todo o meu sucesso profissional começou com um desgosto amoroso, há uma óbvia correlação entre uns e outros. "O maior problema de se ser inteligente, é saber sempre o que vai acontecer a seguir, tira o suspance à vida.", e com base no padrão observado, eu posso desde já dizer-vos como tudo vai acabar.

Vou acabar o curso, e vou voltar para o Indiana, porque ainda que tenha esquecido a minha ex-namorada, não consigo esquecer a vida que imaginei com ela, mesmo que seja com outra rapariga qualquer. Vou ser aceite na pós-graduação da Indiana University, porque já lá estive, porque tenho cartas de referências e a promessa da minha chefe que o meu antigo emprego está à minha espera para quando voltar,e tem todos tantas saudades minhas quanto aquelas que eu tenho deles.

Vou continuar sozinho porque eventualmente o appeal de ser estrangeiro é ultrapassado pelos inconvenientes de ser demasiado diferente, e na altura de assentar e escolher o resto da vida, todo a gente opta por aquilo que sabem e conhecem em vez do tipo que veio do outro lado do mundo.

Passado um ano, acabo a pós-graduação e antes do fim, começo a enviar currículos para Chicago. Com o curso em Lisboa e da pós-graduação da Indiana University, aliada à experiência profissional de Washington, sou aceite como trainee ou estagiário. Mudo-me para Chicago e vou morar para Wicker Park.

Sou um dos primeiros a chegar à redacção, e sempre o ultimo a sair. Não ter ninguém que nos faça ficar mais 5 minutos na cama, ou à nossa espera para jantar em casa ajuda nisso. Sou o melhor jornalista da redacção. Melhor que uns por ser melhor, melhor que outros por trabalhar mais. O editor repara e sou promovido. Continuo sozinho.

Faço longas horas no escritório atrás da história que entre a mulher à espera em casa e levar os filhos ao treino, ninguém teve tempo de investigar. Eu investigo, não tenho mais nada para fazer, faço o que mais ninguém faz, vejo o que mais ninguém vê, e eventualmente, descubro aquilo que mais ninguém sabe. Um furo! Primeira página e um dos políticos mafiosos de Chicago demitido. Torno-me no primeiro português a ganhar um Pulitzer.

Daí em diante a minha carreira dispara. Publico um livro, sou promovido a chefe de redacção. Sem mais nada para que viver, vivo para o trabalho e espero pelo dia em que me torno editor.

Passado uns meses sou chamado à Embaixada de Portugal em D.C. para uma homenagem. Sem mulher, sem filhos, vou sozinho, não há ninguém para ir comigo. No discurso da recepção, o Embaixador faz saber que vai recomendar junto do Presidente que eu seja condecorado com a Grâ-Cruz da Ordem do Infante. Uns meses mais tarde sou chamado a Belém.

Voo para Lisboa. Acordo cedo na manhã seguinte para o acontecimento. Logo depois de me colocar a faixa sobre o ombro. Enquanto a banda do Exercito toca o hino de fundo, o Presidente aperta-me a mão com veemência e sorri para as objectivas. Subo ao pódio para o meu discurso de aceitação, afasto o microfone, alcanço com a mão direita um papel dobrado em quatro dentro do bolso interior do casaco. Estendo-o à minha frente e começo a ler.

- "A Cruz que ostento agora, não fala tão alto quanto a que carrego de trás e vos conta do fracasso que eu sou. Ao longo da vida, falhei em tudo aquilo a que me propus, não tive nada do que queria, daquilo que sonhei para mim. O que consegui pelo caminho nunca foi aquilo que eu quis, fui bem sucedido, porque não consegui ser feliz."
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