Al Berto

"Não. Tudo continua, neste momento, na minha vida, como nos últimos tempos. Um terror! – uma merda! – e não me apetece nada. Absolutamente nada. Dá-me a impressão que tenho andado entretido a falhar coisas, não sei. Nada funciona comigo e parece que a alma e o corpo estão em suspenso, entorpecidos até à medula. Que fazer? Não sei! Sinto falta de tudo, de afectos, de ternura, de tudo, de amor, de paixão, de gestos que me indiquem que estou aqui, que estou vivo e, apesar de tudo, vale a pena ir celebrando a vida. Dentro do possível. Dentro do que me parece justo."

Alberto Raposo Pidwell Tavares, 13 Fevereiro de 1992.

A Margarida Que Eu Não Gosto Nada.

Orgulho e Preconceito

O maior inimigo de um amor pleno é o medo. O medo de não ser suficientemente amado, de não amar o suficiente, de não sermos a pessoa que pensamos que o outro quer, o medo da responsabilidade, da rotina, do compromisso, o medo de falhar, de se deixar ir, de amar e de se deixar amar. Mas há outro grande inimigo do amor: o orgulho. Quantas vezes não perdemos quem amamos por teimosia, mania, obsessão por argumentos racionais e orgulho ferido?

O orgulho ferido num homem é das maleitas mais difíceis de curar; por mais que ele ame uma mulher, se ela lhe abana o orgulho, vira-se o barco e vai tudo ao fundo. E fazer tremer o orgulho de um homem é mais fácil do que parece. É preciso conhecer bem os homens em geral e cada um em particular para não cometer erros inocentes que podem conduzir a uma derrocada inevitável. Por norma, os homens têm de sentir que são importantes na vida de uma mulher. E se por acaso ganham menos, são menos cultos ou menos viajados, se não dominam a realidade que os rodeia da mesma forma que a mulher, isso pode ser o suficiente para se sentirem inseguros ao lado dela.

A insegurança é irmã do orgulho. A Natureza ensinou-nos que a maior parte das espécies animais só ataca sob duas condições: quando tem fome ou quando tem medo. E lá voltamos outra vez ao cerne da questão: o medo está na base das inseguranças, que geram atitudes orgulhosas de defesa, as quais podem revelar-se em gestos de ataque.

Um caso clássico é o do homem que, ao ser rejeitado por uma mulher, trata imediatamente de arranjar outra. Há muitas mulheres que fazem o mesmo, mas não exactamente pelas mesmas razões. Quando uma mulher é rejeitada por um homem e arranja outro, fá-lo para chamar a atenção, como quem diz: ‘Estou aqui, vem cá buscar-me, no fundo é de ti que eu gosto, és tu quem eu quero e de quem preciso ao meu lado’.

Quando um homem sob as mesmas circunstâncias arranja outra mulher, está a passar a mensagem ‘o mundo está cheio de mulheres e portanto não preciso de ti para nada’. Ainda que saiba que no fundo é daquela que precisa, ainda que seja da anterior que gosta e não da nova. Mas há que manter a pose masculina e os códigos de honra de um macho, que se quer ver e ser visto como tal, ditam-lhe ao ouvido que não pode voltar atrás, porque isso não representa o triunfo do amor, mas uma derrota pessoal, impensável de superar.

As mulheres são infinitamente menos orgulhosas. Para uma mulher voltar atrás não é uma derrota, é uma prova de amor. Conseguimos atirar para trás das costas ou passar uma esponja pelas patifarias ou passos em falso do nosso parceiro em nome de valores mais elevados. Há mulheres que o fazem pelos filhos, pela devoção inabalável do conceito de família, por medo da solidão ou porque simplesmente conseguem perdoar. Quando uma mulher já não consegue perdoar um homem é porque ele já gastou todos os créditos e ela já não consegue ter por ele nenhum respeito. É quando já não esperamos nada das pessoas que elas morrem no nosso coração.

Com os homens não é assim: podemos viver no coração deles para sempre, ainda que mostrem ao mundo que já não nos amam. O orgulho fala mais alto, o preconceito da rejeição acaba por prevalecer no coração de um homem, que tem medo, sobretudo medo de ser rejeitado outra vez.

Margarida Rebelo Pinto

P.S. - Depois de O Miguel Que Eu Gosto Mais, de O Miguel Que Eu Gosto Menos... a Margarida que eu não gosto nada. \:

Não creias, Lídia ...

... que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Blueberry Pie!

"The last few days, I've been learning not to trust people and I'm glad I've failed. Sometimes we depend on other people as a mirror to define us and tell us who we are and each reflection makes me like myself a little more."

O Mundo das Coisas Pirosas

Quero um bilhete de ida para o mundo das coisas pirosas e nunca mais voltar. Quero alguém que queira o mesmo e que o queira mesmo! Que se deixe de merdas e venha comigo! Quero alterar o meu estado civil para "Numa relação" e monopolizar o seu mural, rematar com uma foto de perfil de nós dois. Quero borboletas na barriga, nervoso miudinho e trocar 3 vezes de roupa antes de a ir buscar. Quero prendas por ser Quarta-Feira ou porque o dia do mês é par. Quero ramos de flores e balões, corações insufláveis e bolas de sabão, peluches, chocolates e tudo o mais que for foleiro. Quero as nossas iniciais unidas por um sinal de mais cravadas no tronco dum pinheiro. Quero tardes no aquário Vasco da Gama e idas ao planetário, o teleférico do jardim zoológico e visitas ao oceanário. Quero drive-in e noites de cinema ao ar livre, filmes no banco de trás. Quero um batido de morango com duas palhinhas em caracol, copos de gelado de duas bolas em que cada um escolhe um sabor. Quero pic-nics no meio de Lisboa durante a hora de almoço, cesta de verga e manta axadrezada incluídas. Quero jantares à luz da vela numa mesa de plástico tirada da bagageira e montadas à pressa na encosta duma falésia, o radio a tocar. Quero pores-do-sol e noites de lua cheia, apagar estrelas com a ponta dos dedos deitados no capot do carro . Quero telefonemas de 3h que acabam em "Desliga tu, não desliga tu, não desliga tu", contarmos os dois até três e nenhum dos dois desligar. Quero uma mensagem de "Bom Dia", outra de "Boa Noite" e um "Amo-te" sem hora marcada sempre que apertar a saudade. Quero ser o "contacto de emergência" e ultima chamada recebida, feita, perdida. Quero nomes de código e um toque só para mim. Quero gravar cd's com musicas lamechas e ter longos debates sobre qual é a nossa canção. Quero dançar abraçado à chuva na ribalta de um candeeiro de rua, serenatas! Quero demonstrações pungentes de afecto temperadas com entregas desmedidas de amor. Quero um beijo num sinal vermelho, que fica verde e outra vez vermelho, e 30 carros a buzinar. Quero dedos entrelaçados e palmas das mãos suadas pela força de não se largarem. Quero um nó de pernas debaixo dum cobertor e pantufas a condizer. Quero acesas disputas sobre quem controla o telecomando. Quero ir sair para beber café e acabar na Pousada de Portugal de Bragança, em Paris ou nas Ramblas. Quero escapadinhas de dois dias de Segunda a Domingo e amor de verão o ano inteiro. Quero sprints um contra o outro à chegada de comboios e aviões, que terminam num salto encarpado para os meus braços e ela a rodopiar no ar. Quero escolher alianças, nomes de crianças e tardes intermináveis de IKEA. Quero banhos de espuma e duches para dois. Quero recadinhos em pasta de dentes no espelho da casa-de-banho e um copo com duas escovas. Quero discussões no meio da rua e gritaria ás 3 da manhã. Quero acabar tudo e arrancar a fundo, guiar 10 metros e travar. Fazer marcha-atrás a chorar, pedir desculpa e implorar, recomeçar. Quero passar a noite a fazer as pazes, adormecer em conchinha com uns pés pequeninos em cima dos meus. Quero acordar-la com um beijo, pequeno-almoço na cama e estar tudo bem. Quero-a lá, saúde e doença, riqueza e pobreza e que nem a morte nos separe, porque eu sei, e ela também, que os problemas que se tem com alguém, são tão melhores que os de não ter ninguém.

Para a Sara, que queria piroseiras na vida dela.

Só Desta Vez...

" ... E de olhos fechados, podias imaginar a vida que sonhas mas ainda não conheces, podias ver o futuro a passar-te à frente, fazias as pazes com o teu passado e percebias que podemos ter aquilo que sempre quisemos, que nada é impossível quando o que queremos é verdade e está certo.

Se eu pudesse, voltava ao princípio e ia mais devagar, falava mais e ouvia-te menos, oferecia-te um dicionário com todas as palavras que não conheces ou já esqueceste, tolerância, confiança, transigência, partilha, abnegação, construção. Depois embalava-te outra vez nos braços e esperava que o dia seguinte trouxesse atrás de si outro e mais outro e deixava a vida fluir, esquecia-me dos teus defeitos e tu dos meus e com o tempo aprenderíamos a viver um com o outro sem nos cansarmos, sem nos magoarmos, sem sombras nem equívocos...

Se eu pudesse, levava-te agora para casa, sentávamo-nos à lareira a conversar, explicava-te porque é que um dia reparei que existias e sem querer me esqueci do meu coração entre os teus dedos...

Se eu pudesse... mas não posso, porque ninguém caminha sozinho, uma ponte só se constrói se as duas margens deixarem e o rio só corre se a corrente o empurrar. E eu não sou mais do que uma gota de água nesse rio parado, uma peça perdida de uma ponte desmantelada, um mapa riscado que se esqueceu de todos os caminhos, uma folha em branco que perdeu a caneta, um estandarte sem bandeira, uma voz sem som, uma mão sem a outra. Falta-me a tua voz, o teu desejo, o teu querer, o teu poder. Falta-me uma parte de mim que te dei e que agora já não podes devolver.

Um dia ainda havemos de nos entender."


Margarida Rebelo Pinto

Um post que ela goste mais.

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses todo nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

 
Florbela Espanca

Start Dreaming!

Na tua cama de corpo e meio, mora um coração enorme que deixou de funcionar, não há nada de errado com ele, mas a dona não o quer usar, garante que está estragado, que ninguém o consegue arranjar, está fora-de-serviço, não vale a pena tentar, guarda no peito um coração tão grande mas não deixa ninguém lá entrar.

Na tua cama de corpo e meio, aguenta mais que aquilo que a achas achas capaz de guardar, os males que vêm de trás, até então os maiores de sempre, até um mal maior chegar, e sem se queixar, a cama que mal suportava o peso dos problemas que tinha, carrega sem um ranger, os problemas que faltavam, e os que ficam a faltar.

Na tua cama de corpo e meio, até o vazio ocupa lugar, o vazio de quem não está, de quem não quis ficar, mas que tem o espaço guardado à espera do dia em que decida voltar. As saudades dos amores amores, e dos outros amores que há, de Lisboa à Póvoa à Suíça, que vais encaixando uns nos outros até os conseguires arrumar.

Na tua cama de corpo e meio, cabe o teu corpo e o meu, espremido entre a conchinha grande e uma outra mais pequena, chega até a caber algo nosso, planos para qualquer coisa a dois. A mulher que eu quero ter, a mãe que tu queres ser, dois meninos, uma menina, e os nomes que eles vão ter, sonho até nascer o sol e a manhã deita tudo a perder.

Na tua cama de corpo e meio, dorme uma rapariga estragada, e um rapaz que a quer arranjar, dar-lhe corda ao coração, tentar pô-lo a trabalhar, salvá-la do horror dos Domingos, mas ela não quer deixar. Ela quer um amigo e "amigos" não vai chegar. Na tua cama de corpo e meio, há lugar para o mundo inteiro, mas nunca houve lugar para mim.

Para a Sara

Boy Interrupted

"You know, there's too many buttons in the world. There's too many buttons and they're just - There's way too many just begging to be pressed, they're just begging to be pressed, you know? They're just - they're just begging to be pressed, and it makes me wonder, it really makes me fucking wonder, why doesn't anyone ever press mine? Why am I so neglected?"
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