Waiting On The World To Change!

Esclarecimento da Ex-DGV:

Tendo em conta as disposições aplicáveis do Código da Estrada, na redacção que lhe foi conferida pelo Decreto-Lei nº 44/2005, de 23 de Fevereiro, constantes dos artºs 13º, nº 1; 14º, nºs 1 a 3; 15º, nº 1; 16º, nº 1; 21º; 25º; 31º, nº 1, c) e 43º e as definições referidas no artº 1º do mesmo Código, na circulação em rotundas os condutores devem adoptar o seguinte comportamento:

1- O condutor que pretende tomar a primeira saída da rotunda deve:

Ocupar, dentro da rotunda, a via da direita, sinalizando antecipadamente quando pretende sair.

2 - Se pretender tomar qualquer das outras saídas deve:

Ocupar, dentro da rotunda, a via de trânsito mais adequada em função da saída que vai utilizar (2ª saída = 2ª via; 3ª saída= 3ª via);

Aproximar-se progressivamente da via da direita;

Fazer sinal para a direita depois de passar a saída imediatamente anterior à que pretende uitilizar;

Mudar para a via de trânsito da direita antes da saída, sinalizando antecipadamente quando for sair.~

.... e só levou dois anos e meio

Smile... It Confuses People

"So you failed. Alright you really failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You think I care about that? I do understand. You wanna be really great? Then have the courage to fail big and stick around. Make them wonder why you're still smiling!"

in Elizabethtown

"Quase gosto da vida que tenho...

...Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.

Deixei para trás a obrigação de mudar de mundo. Já cometi corrupção. Só ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim.

Não é desistir, é só não dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.

Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe. Não entendo como nunca houve uma religião que adorasse o tempo. Será possível imaginar algo mais elementar e poderoso? Que com ele não se possa falar não me parece um defeito. Há coisa que, de qualquer modo, não se pode falar.

Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.

Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite. Tenho um filho que cresce longe de mim e que ainda não sabe quem sou. Quis que fosse assim e não me arrependo. Não me julgo bom exemplo. Tenho um seguro de vida por morte violenta em seu favor que me poupa uma inquietação e lhe lega uma fortuna. Do resto não sou responsável. A biologia é uma ciência quase exacta e a natureza tem a sua inteligência das pedras.

Estudei durante muitos anos sem qualquer interesse prático. Os livros pareciam-me mais interessantes do que qualquer viagem. Escolhia-os ao acaso. Mas o que se fica a saber não nos torna mais lúcidos. Agora quase preferia não os ter lido. O saber transforma as coisas em nada, ou, pelo menos, arruma-as numa gaveta escura e triste da memória que é sempre uma deusa nostálgica.

Durante algum tempo tentei distrair-me. Cometi crimes contra a moral. Abusei do meu corpo sem qualquer respeito. Não fui feliz nem fiquei satisfeito. As raparigas de que gostei não queriam de mim o que eu queria delas e há mal-entendidos que não convém alimentar. Foi assim que fiquei sozinho. A sério que tentei. Talvez da maneira errada. Agora, mesmo que quisesse recomeçar não tinha tempo. O tempo não mostra qualquer compaixão. E houve alegrias que bastassem. É justo assim.

Quase gosto da vida que tenho. Sou conhecido nalguns restaurantes, o que não significa que me sirvam melhor, mas é sempre bom ser reconhecido. Raramente saio à noite, mas quando o faço acabo sempre por encontrar alguém que ainda se lembra de mim e quando volto a casa tenho comprimidos que fazem dormir. Por vezes durmo com uma rapariga e faço o que se deve fazer e o prazer vem e passa como um alívio. Não espero encontrar ninguém, a minha melancolia é-me suficientemente querida. Não tenho saudades de pessoas, só de sítios e de coisas. Em particular há um frigorifico que guardo zelosamente na memória. Ainda subsiste algures porque a matéria é a única coisa que resiste.

De que gosto? De literatura, whisky escocês e de adormecer logo. O trabalho é um rentável entretém que me ocupa as horas mortas. Vejo os filmes em casa, de todas as séries. Incomodam-me os barulhos das pessoas sentadas ao meu lado e gosto de rever as cenas mais macabras. Por isso vivo sozinho. Quando preciso, conheço um massagista que é negro e silencioso como a noite. E de Inverno nado. A minha mulher-a-dias vem todos os dias quer esteja ou não constipado. Se fosse mais bonita e menos surda casava com ela sem qualquer preconceito. Já julguei ser um génio. Agora acho-me um mero mortal desencontrado. Vivo, é já o bastante. Não vou a nenhum lado, mas isso tu já sabias.

Sim, meu amor, é esta a vida que levo. E raramente penso em ti como agora. Não te arrependas de nada. Por hoje já bebi o bastante. À tua saúde."

Pedro Paixão


Para a Margarida, a quem "roubei" isto.

Os Limites da Felicidade

"Há-de por certo haver alguém que eu reconheça por entre a multidão sem hesitar!" ... e se ela não me reconhecer a mim?

Uma amiga minha contou-me no outro dia que ia a chegar a casa, quando o tipo do carro de trás começa a dizer-lhe adeus, mandar beijinhos, fazer sinais de luzes. "Depois da terceira curva que ele fez atrás de mim comecei a ficar assustada, mas lá o consegui despistar." E se fosse ele? O tal?

Imaginem que eu vou na Auto-Estrada do Sul a caminho de Lisboa, e passo por ela, pela Tal, e "reconheço-a sem hesitar!" O que é que eu faço, sabendo que se não lhe disser qualquer coisa ali, a volto a perder? Sigo-a? Faço adeus ou mando beijinhos, peço-lhe para encostar? Sabemos todos que isso não funciona. Aponto a matricula do carro e dou 20 voltas ao mundo para a tentar encontrar? Já tentei, não resultou., ou melhor, resultou, encontrei-a, mas conseguir encontrar alguém pela matricula do carro (ou pelo talão do multibanco) é só tido como assustador, e nada romântico.

Vamos tornar as coisas mais fáceis, vamos imaginar que me cruzo com ela na rua, e posso até ir falar com ela, o que é que eu lhe digo? "Desculpa, eu sei que não nos conhecemos nem nada, mas se tiveres 5 minutos podíamos sentar-nos no primeiro café que encontrássemos e mudar isso. Eu chamo-me Zé." ... estão mesmo a ver isso funcionar? As raparigas que acham que sim, digam-me lá quantas vezes estiveram receptivas a uma abordagem dessas, ou casaram com o tipo "prestável" que veio só corrigir-vos a postura no ginásio? E os rapazes que as imaginam dizer que sim, os meus parabéns, são muito mais giros e têm muito mais jogo do que eu.

A verdade é que tudo aquilo que não acontece de uma forma natural, é forçado, por maior que seja a naturalidade com que o fazemos. Por melhores que sejam as nossas intenções, mesmo que nunca tenhamos feito algo assim por ninguém antes, ela não sabe isso, e aquilo a que a sociedade nos habituou, é que quem tem o descaramento de o fazer uma vez, provavelmente já o fez uma centena antes desta, e aposto que todas elas começaram com "Desculpa, eu nunca fiz isto antes mas...".

E até é fácil conhecer alguém naturalmente, quando entrei para a escola fiz 30 amigos novos logo ali! Quando passei para o preparatório e mudei de turma, outros 30, mais uns 300 das outras turmas. Quando cheguei ao secundário, conheci mais uns 40 e os 400 que vieram por acréscimo de todos os outros turnos da tarde. Cheguei à faculdade e foram mais 40, e quando comecei a trabalhar outros tantos. O problema é que se depois dessas etapas em que a vida nos presenteia com uma remessa nova de amigos, as coisas começam-se a complicar.

Pior para mim, leal seguidor da igreja do amor à primeira vista. Ou aconteceu quando a conheci, ou não aconteceu, e se não aconteceu, muito dificilmente vai acontecer depois. Tenho a ideia de que é extremamente difícil apaixonarmo-nos à primeira vista por alguém que conhecemos há 10 anos, mas posso ser só eu.

E é aqui que o verdadeiro problema começa. Se depois de todo este tempo, depois todas essas pessoas que eu conheci naturalmente, por força das circunstâncias, escola, trabalho, amigos, ainda estamos sozinhos, há apenas duas maneiras de abordar a situação. Ou abdicamos da nossa ideia romântica de como tudo ia acontecer, e arriscamos com alguém que ainda que não tenha começado como quem nós queríamos que fosse, e fazemos figas para que isso mude com o tempo. Ou continuamos à espera, mas cientes que não basta encontrá-la na rua, cruzarmos-nos no trânsito, é preciso que se conheçam com a mesma naturalidade como quem esteve sentado na carteira de trás nos nossos tempos de escola, e como é que se fazemos isso?

Não fazemos, tem de ser os amigos a fazer por nós. Um jantar na casa do Pedro em que a prima de Castelo Branco também foi, o aniversário do Luís, com as colegas do curso de enfermagem. Ir sair à noite com a Ana, mais as amigas dela. Passa sempre por eles. Pelos amigos. Se não conhecemos por nós, vamos ter de a conhecer por eles, porque muito dificilmente conseguimos conhecer quem não conhecemos duma maneira casual, sem dar um ar de engate. Não podemos ser felizes com qualquer pessoa do mundo, com quem seja que for que passe por nós na rua, tem de haver uma ligação, uma razão para ela entrar na nossa vida sem a puxármos, o que quer dizer que o universo de pessoas com quem eu posso ser feliz, baixou do mundo inteiro, para o meu numero de amigos e os amigos que eles teem, são esses os limites da nossa felicidade.

Mas nunca há nada tão mau, que não possa ficar pior. Quantas vezes vão mudar de casa e fazer amizade com a nova vizinha do outro lado do Hall? De trabalho? Garanto-vos que a maioria das pessoas que vão conhecer na vida, já as conhecem agora, e que o numero de pessoas que vão conhecer daqui em diante, é muito inferior ao daquelas que já conhecem. A probablidade está contra nós. Se ela não estava entre as 10.000 pessoas que conheço, a probabilidade de estar entra as 1000 que ainda vou conhecer é 10% das que tive nas 10.000 e nem com essas todas funcionou.

Quantos amigos fizeram hoje? Ontem? Esta semana? Este mês? Pessoas com quem mantiveram contacto? Com quem continuaram a falar? Marcaram um café? Comigo não foram assim tantas. Quantas dessas vos despertaram a atenção? Por quantas se apaixonaram à primeira vista? Esta é a parte em que eu tento introduzir uma nota mais optimista, a ideia de que não é tão mau assim, ou de que tudo vai acabar bem, mas não tenho nada de inspirador para partilhar, e o pensamento que guardo, é o de que não é só o estar sozinho, é o estar cada vez mais sozinho.

Paper Towns

«The way I figure it, everyone gets a miracle. Like, I will probably never be struck by lightening, or win a Nobel Prize, or become the dictator of a small nation in the Pacific Islands, or contract terminal ear cancer, or spontaneously combust. But if you consider all the unlikely things together, at least one of them will probably happen to each of us. I could have seen it rain frogs. I could have stepped foot on Mars. I could have been eaten by a whale. I could have married the Queen of England or survived months at sea. But my miracle was different. My miracle was this: out of all the houses in all the subdivisions in all of Florida, I ended up living next door to Margo Roth Spiegelman.»

John Green

Amores Declarados

Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer uma declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há minuta. Não há sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo próprio. A experiência não serve de nada — por muitas declarações que já se tenham feito, cada uma é completamente diferente das anteriores. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa: que não tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma.

É verdade — começa-se sempre do zero. O facto de ser, como diz, "o rapaz mais solicitado do liceu" não conta para aparas de alpista. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa à suprema inocência, inépcia e barbárie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das calças nas pernas e quando damos por nós estamos de calções. A experiência não serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: "Ouve lá, tu que tens experiência de queimaduras do primeiro grau…"

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos, Deus Nosso Senhor carrega no grande botão "CLEAR" que mandou pôr na consola consoladora dos nossos corações. Esquece-se tudo. Que garfo usar com o peixe. Que flores comprar. Que palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco hei-de usar? Sabe-se nada. Nicles. Raul Nery.

Olha-se para as mãos e parece uma cena de transformação dum filme de lobisomens — de onde outrora havia aqueles dedos tão ágeis e pianistas, brotam dez abortos de polegares. E o vinho entorna-se só de pensar nisso. E as solas dos sapatos passam a atrair magneticamente todos os excrementos caninos da cidade. E a voz que era toda FM Estéreo da Comercial quando vai para dizer "Gosto muito de ti" fica repentinamente Abelha Maia.

Tenha-se 17 ou 71 anos, regressa-se automaticamente aos 13 — a terrível idade do Clearasil e das sensações como que de absorção. Quem se apaixona dá mesmo saltos no ar e diz "Uau!" quando o Pai deixa usar a pasta de dentes dele. Qual "ternura dos quarenta", qual bota da tropa cheia de minhocas! O amor é sempre uma anormalidade que provoca graves atrasos mentais. Leva gerentes bancários a quererem comprar uma mota e a visitarem asilos só para bater com a porta dizendo "Nesta casa ninguém me compreende!".

Dir-se-á que esta insegurança é irritante. Se calhar é diferente nos homens e nas mulheres. Um homem pode ser amado por cem mulheres bonitas e no dia em que uma feia lhe vira a cara desaba-se-lhe a confiança. Acha que as outras cem é que estavam enganadas e que só esta percebeu finalmente que ele não prestava para absolutamente nada. A uma mulher, em contrapartida, basta ser amada uma única vez para achar que os cem homens que a rejeitam são simplesmente parvos que não sabem o que perdem.

Deveria haver uma "SECURITAS" do amor — uma firma eficiente que soubesse proteger os corações particulares das pessoas. Que surgisse, fardada e encapacetada, de luva esticada a separar as pessoas no meio de um "tête-a-tête" num restaurante: "O primeiro a roubar um beijo vai preso." Não, isso também não. De preferência, seriam os guardas desta "Securitas" que abririam as garrafas de champanhe sem com isso cegar a "hamster" da pretendida. Seriam revisores exímios dos bilhetes e das cartas de amor. Onde as pessoas escrevessem as habituais tiradas, tipo "Eu vou-me matar se não casares comigo", poriam frases mais sedutoras e eficazes. Daquelas que só ocorrem quando não se está apaixonado.

Mas não há nenhuma "Securitas" do amor. Não há nenhuma agência que trate da documentação. Não. As declarações de amor têm de ser feitas à mão. Não se pode usar esferográfica. Só sangue fresco.

Na verdade, não há amor sem insegurança. Quem tem a certeza de ter quem quer, ou não tem, ou não quer grande coisa. A "segurança" é mais para desodorizantes do que para paixões. "E se alguém vier para lhe oferecer flores e se estampar no chão à sua frente fracturando a cana do nariz e espirrando sangue para cima do seu vestido de seda branca… Você sabe que é Impulse.".

Mas então como se faz uma declaração de amor? Em papel selado, na presença de um advogado. Por que não? As piores declarações são as pífias e clandestinas, do género "Acho-te uma pessoa muito interessante". As melhores são aquelas que comprometem quem as faz, que se baseiam em provas capazes de serem apresentadas em tribunal, que fazem corar as testemunhas. As declarações do tipo "Experimentar-a-ver-se-dá" nunca dão. É melhor mandar imprimir 2000 folhetos e distruibuí-Ios por avioneta à população, devidamente identificados, do que um bilhetinho anónimo de "um admirador". As declarações de amor têm de cortar a respiração a quem as recebe, têm de rebentar na cara de quem as lê. O amor e o terrorismo são questões de objectivo, e não de grau.

Como estamos todos a zero, ninguém pode dar conselhos a ninguém. Há séculos que as maiores cabeças do mundo procuram a frase perfeita de apresentação. Há as deixas rascas, do género "Deixe-me adivinhar o seu signo", ou "não costuma cá estar às terças-feiras, pois não?" há as deixas pirosas, do género "Importa-se que eu diga que você é muito bonita?" ou "Posso só dizer-lhe uma coisa?" "O seu namorado tem muita sorte!". Depois, há as deixas supostamente "cool", do tipo "O meu nome é Max eu toco Sax" ou, mais formal, "Muito prazer, Luís Bobone, toco saxofone". Ultimamente, a julgar por recentes exemplos, é moda usar deixas crípticas, do género "Então sempre conseguiu resolver aquilo?", ou "Importa-se de me segurar a bebida enquanto eu olho para si? É que pode apetecer-me bater palmas" ou ainda (versão 1987) "não se importa de ficar aqui comigo um bocadinho enquanto o meu guarda-costas não volta da casa de banho?".

Todo o amor é um engano. Trata-se é de nos enganarmos bem.



Miguel Esteves Cardoso, em "Os Meus Problemas"

Ferida que não, Sara.

Tenho saudades do som do teu nome ao deixar os meus lábios ou da combinação de teclas que o escrevem no inicio de uma mensagem, o tom do teu toque seguido da tua voz do outro lado da linha quando o telemovel toca. Da tua pronúncia automática mediante quem te telefona. Do angulo absurdo da tua calçada e do Cardeal, da largura ridicula da porta de entrada e o ranger da madeira das escadas ao subir os degraus para a tua casa. Dos teus lençois polares e da tua cama de corpo e meio, das noites em que foi minha também. Das noite que foste minha também e as minhas costas marcadas pelo cravar dos teus dedos. Acordar ao teu lado na manhã seguinte com o sol a entrar pela clarabóia que a parede corta a meio, os teus pés em cima dos meus e o teu respirar no meu pescoço interrompido pelo "Sol", "Fá", "Lá" da estação a anunciar que "o comboio estacionado na linha número dois é o IC com destino a Porto-Campanhã e partida prevista para as 11:30". Do teu cheiro em mim e as tuas mãos de princesa na ponta dos braços enrolados à minha volta. O record mundial a cada manhã, de "acabada de acordar" a "miúda mais gira que eu já vi" em três minutos e meio! O som de arranque do Windows, vindo do quarto alemão logo pelo raiar do dia! Das tuas botas espalhadas pelo chão e até do par de tenis que odeio. De todos os teus tons de castanho e da cortina que os esconde. Do autoritário "tapa os olhos!" na hora dos teus truque de senhora, e a surpresa com a minha pronta obdiência. Das borboletas a comerem-me a barriga e o coração em esteroides antes de chegar ao pé de ti. De um dia inteiro a pensar na surpresa que ia preparar desta vez. Saudades das que fiz, e das que pensei e ficaram por fazer. Flores, balões, e um frigorifico atestado de Häagen-Dazs (Chocolate Midnight Cookies), uma sandes com pouca manteiga. Do teu riso escancarado e a chacota inevitável ao meu ridiculo sentido de orientação, quando o meu suposto atalho calhava ser 3kms mais longo e 10 minutos mais demorado. Mas mais que isso, mais que o resto, saudades da tua boca feita por medida a pensar na minha e de tudo o que tem agarrado a ela, do sincronismo natural das voltas dos teus lábios nos meus, das voltas dos meus lábios nos teus.

The Prestige

Para verem a facilidade com que me apaixono, posso-vos dizer que os Coldfinger apresentaram o Supacial em Junho, e o Sagres Surf Fest foi em Agosto, o que quer dizer que o que aconteceu e não aconteceu com a sofia, foi entre Maio e Agosto de 2007. Temos de saltar um ano e meio até o proximo nome aparecer na minha vida, o da Vero.

Começámos a falar no inicio de 2009, eu em Lisboa, ela em Washington. Em Abril decidi que era distância a mais e fui ter com ela. Passamos duas semanas de sonho, ou eu passei, e quando me vim embora estava convencido que tinha encontrado algo pelo qual valia a pena lutar, e ela ajudou a convencer-me que sim.

Quando cheguei a Portugal, comecei a tratar de arranjar maneira de voltar para ao pé dela, ainda voei de surpresa para a ver um fim-de-semana de Junho, mas ela já não me quis ver e mesmo antes de eu me conseguir mudar, mudou ela de ideias, e foi andar com outro tipo qualquer. Morei 6 meses em D.C., nunca mais a vi.

E não fez mal. Pouco depois conheci a Lacey. Começámos a namorar 15 dias depois de nos conhecermos, e fomos morar juntos 15 dias depois de começarmos a namorar, e fomos bue felizes, ou eu fui, ela pelos vistos não tanto. No inicio de 2010 eu voltei para Lisboa, e a Lacey veio estudar para Canterbury. Duas semanas depois de chegar a Canterbury, mandou-me um mail a acabar comigo (é sempre por email, ou sms, nunca me guardaram muita consideração). Acontece que eu estava a 3 paises de distância, e eram quilometros demais para rivalizar com um Frank, só duas portas abaixo.

Ainda voei para Londres algumas vezes para tentar encurtar a distância, e consegui de todas a vezes que lá estive, mas chegava sempre a altura em que tinah de me vir embora, e ele continuava lá. Ele acabou por ganhar. Eu fiquei para morrer, e ele ficou com ela.

O nome que falta, foi ainda agora, já este ano, ferida por demais recente para eu querer falar nela. Fiz 8000kms de coração nas mãos para lho dar, e assim que o teve, deitou-o fora, quis outras coisas, outros rapazes que não eram eu. Sempre fui descartável.

E assim se fecha o circulo dos meus problemas, ao tentar perceber também nisto, o que é que eu fiz mal todo este tempo, onde é que eu falhei todas estas vezes, o que é que há de tão errado comigo que faz todas as raparigas que eu amei, acreditar que vão ser tão mais felizes com outro rapaz qualquer que comigo, quando eu nunca as tratei abaixo de princesa. Todos os meus esforços, a minha dedicação, todo o meu amor nunca chegou para alguem me querer. Houve sempre alguém melhor, que por norma nem se esforçou para as ter, e que elas quiseram mais que a mim. Aparentemente tão melhor que um "por agora com ele" supera um "para sempre comigo". Sabem? É dificil gostarmos de nós quando aquelas de quem nós gostamos acham tão mais facil de gostar de outro tipo qualquer.

Queria ter encontrado algo de errado, algo que eu fizesse tão notoriamente mal para o conseguir corrigir e me salvar deste fim que dá cabo de mim, e não encontrei, mesmo os meus defeitos, e são uns quantos, não são mais feios que os de ninguém. Cheguei até a perguntar-lhes, a pedir-lhes ajuda para tentar perceber e fazer melhor da próxima vez, e nenhuma delas me ajudou. "Não fizeste nada Zé", "foste perfeito", "sei que não vou encontrar outro rapaz como tu", "és o rapaz que toda a rapariga sonha encontrar", todas as tradicionais coisas que se dizem a quem não queremos mais. "Tenho a certeza que vais fazer alguém muito feliz" ... só não vai ser a mim, que tenho outros planos com outros rapazes, que não te incluem a ti.

O meu problema afinal, é a minha dedicação que é imensamente grande, a minha entrega que é por demais desmedida, o meu gostar excessivamente carinhoso, é o meu amor que é demasiado eterno, os meus planos a dois muito "para sempre", querer casar, os nomes das filhas, credo! E elas têem razão, devem ter não é? Afinal, elas estão com alguém, alguem está agora com elas, e eu continuo sozinho. O meu mal está em dar o meu melhor, e não conseguir (ou querer) dar menos, a quem é o meu tudo. E se acho que não estou a fazer nada mal, não posso mudar, resta esperar que chegue alguem que reconheça o que de bom há em mim e me dê valor, para quem tanto amor não seja assutador, a quem "para sempre" não soe assim tão mal.

The Turn

... e depressa se vão aperceber de tudo aquilo que tem em comum com o primeiro.

No outro dia almocei com o Fatty, que de tempos a tempos exige ser posto a par das minhas ultimas desilusões amorosas, e no meio de uma conversa que já não me lembro muito bem como começou ele diz "mas metade desses nomes, são de miudas que não te dizem nada, porque se formos a ver bem, nos ultimos tempos, de quantas miudas gostaste?" ... e eu respondi-lhe, "4"!

Para vos contar da primeira dessas 4 temos de recuar 5 anos atrás, e o nome dela foi a peça do puzzle que faltava encaixar para este padrão ganhar forma e fazer sentido, só quando o escrevi há 5 posts atrás é que comecei a pensar nela, em tudo o que tinha acontecido e me apercebi que foi ela que deu inicio a esta tendência, a Sofia.

Gostei dela assim que a vi! É suposto ser assim que começam todas as grandes histórias de amor, é assim que é suposto ser, não é? E com ela foi. Conhecemo-nos em 2005, pela altura em que ela namorava com um tipo que eu conhecia, e como tal, nem nunca disse a ninguem o quanto a Sofia mexia comigo, e guardei-o para mim até um amigo em comum me vir confidenciar em tom de dilema moral, o quanto a namorada dum amigo dele mexia com ele também.

Eu disse que o compreendia, e para lhe mostrar o quanto o compreendia, falei-lhe na Sofia, e no namorado dela, que os dois conheciamos, e ele diz "Eles acabaram há já uns meses" e longe de mim desejar a desgraça alheia, mas aquilo foi musica para os meus ouvidos! Comecei a falar mais com ela, e a passarmos mais tempo juntos, eventualmente combinamos ir sair. O nosso primeiro "date" foi a apresentação do "Supafacial" dos Coldfinger na Musicbox em Lisboa.

Até há bem pouco tempo, e durante todos estes anos, a Sofia foi a detentora do titulo de "Encontro mais romântico que eu já tive". Numa noite de inicio de verão fomos jantar ao "La Paparrucha". Ficamos na ultima mesa da Sala, encostada ao vidro a jantar enquanto o sol de punha por detrás duma das colinas de Lisboa.

Depois do jantar fomos a correr para a Cinemateca, pela altura do ciclo de Cinema ao Ar Livre. Vimos o "Avanti!" sentados na ombreira duma porta enquanto bebiamos sangria num cenário que parecia tirada da musica de Lou Reed. Depois do cinema, fomos a um bar, e antes de chegar a casa, parámos no miradouro. A Sofia que por essa altura já me tinha dito que ainda não estava preparada para se atirar para outra relação, encosta a cabeça no meu ombro e diz "Mas é uma pena se isto não dér em nada!"

Umas semanas depois, estamos os dois no Algarve, quer dizer, mais ou menos, eu em Armação, ela em Monte Gordo, entre um sitio e outro, ficam 100kms. Consigo até dizer-vos o dia! 12 de Agosto de 2007! Era o ultimo dia da World Press Photo em Portimão, e um dos primeiros da Feira Mediaval de Silves, e a Sofia queria ir aos dois... e se ela queria! Fui busca-la a Monte Gordo, e fomos jantar à Feira Mediaval de Silves, saimos da Feira Mediaval de Silves a tempo de apanhar os ultimos 15 minutos da World Press Photo em Portimão, depois disso, fui a leva-la a casa a Monte Gordo e voltei para Armção. Fiz 600km's essa noite, por ela.

Umas semanas depois fomos para o Sagres Surf Fest, e na ultima noite, depois de passarmos o tempo a "desencontrar-mo-nos" sempre que eu ia ter onde ela dizia que estava, já depois do festival acabar, vejo-a voltar para o Recinto de mão dada com um tipo que entretanto tinha aparecido, e eu percebi que nunca foi o não querer estar com ninguém, queria, só não era comigo.

Voltei a ter noticias dela na manhã seguinte, numa mensagem de telemovel a lamentar a infelicidade dos nossos desencontros da noite anterior. Eu repondi que a infelicidade tinha sido não nos termos desencontrado e ela telefonou-me. Eu disse que a tinha visto, e ela acrescentou "Não ia sozinha pois não?" ... "Não" ... "e agora?" ... "Não sabes?" e desliguei o telefone. Fui a ultima vez que falei com a Sofia.

... até há 2 semanas atrás quando ela me encontrou no café, 4 anos depois e me veio dizer "Vá-lá Zé, dá-me dois beijos, não sejas mal-criado". Só depois da pergunta do Fatty e de escrever o nome dela, é que fiz as contas e dei conta, de que TODAS as raparigas por quem me apaixonei nos ultimos tempos, me trocaram por outro tipo qualquer, alguém que aos olhos delas seria tão melhor que eu e capaz de as fazer mais felizes que aquilo que eu seria, por maiores que fossem os meus esforços. Houve sempre alguém melhor, tão obviamente melhor, que por norma, nem precisou de se esforçar para conseguir, o que a muito custo, eu não consegui ter ou manter. A Sofia foi a primeira, amanhã conto-vos das outras.

The Pledge

Este sempre foi um blog modesto sem grandes aspirações de grandeza, e se é verdade que nunca fiz segredo de que o tinha, também o é que nunca fiz muita questão de o publicitar. Logo gosto de acreditar que nada daquilo que escrevo aqui é um choque para quem o lê, porque o mais certo é conhecerem-me e saberem como eu sou o como eu penso em relação a seja o que for.

Acontece o mesmo com os comentários que ocasionalmente aparecem e 90% das vezes consigo identificar o autor. Um dos ultimos não consegui, estava assinado por uma Graça, e dizia "Cativaste-me. Tens uma escrita honesta e feminina. E não estou a chamar-te nomes." ... Ehehe, obrigado Graça pelo comentário, pela visita, pelo teu tempo, se queres que te diga, estou mais preocupado em ser "eternamente responsável por aquilo que cativo" que achar que me estás a chamar nomes, porque, e aquilo que nos leva ao post de hoje, e ao primeiro dos meus problemas, mesmo que estivesses, é algo a que já me começo a habituar.

Ha uns meses atrás, tinha uma amiga do Rio cá, a Karyn, e como é da praxe, levei-a a passear por Lisboa, tirar fotografias, o costume. Em frente ao Mosteiro dos Jerónimos encontrei um amigo meu e a namorada dele, que eu ainda não conhecia e fomos sair os quatro.

Uma hora ou outra depois, sentamos no bar que tinhamos escolhido, a namorada do meu amigo diz-me que quando me conheceu pensou que eu era gay, e antes que ela conseguisse acabar a frase, a Karyn completa "eu sei, eu pensei a mesma coisa quando o conheci", e não fosse grave o suficiente as tuas terem pensado isso, tinha acontecido exactamente a mesma coisa a semana antes.

Tinha ido ter com uma amiga minha e as amigas dela que eu não conhecia a um bar aqui perto onde passamos a noite a falar de ex-namorados delas e planos maqueavelicos para se vingarem deles, quando eu digo qq coisa como "O oposto do amor, não é o odio é a indiferença, há um poema da Florbela Espanca que diz"... e recito...

Ódio seria em mim saudade infinda, / Mágoa de o ter perdido, amor ainda. / Ódio por ele? Não... não vale a pena... "

... claro está! No dia seguinte a minha amiga veio-me dizer que lhe foram todas perguntar se eu era gay. Mea culpa né? Homem que é homem não recita poemas de cor.

O foi nisso que eu fiquei a pensar, desde então, o que era que eu fazia ou dizia, que fazia com que as raparigas que eu acabava de conhecer pensassem que eu era gay, e claro está, fui perguntando ás minhas amigas que sinais errados é que eu andava a emitir para terminar de vez com a emissão, e sabem o que é que elas disseram? Que é a minha maneira de ser, o ter sempre uma frase de alguem famoso que se adequa à situação, ou um poema que diz aquilo em que estamos a pensar melhor que o sabemos dizer, uma passagem de um filme, ou uma musica, o escrever. É o abrir a porta do carro à rapariga que vái sair comigo, o segurar a porta seja de que sitio for que a gente vá, é o andar no passeio do lado da estrada, por-lhe a mão nas costas ao subir uma escada, etc, etc, etc... em suma, todo o cavalheirismo que há em mim.

Não acho que seja nada que eu faça mal, não acho que faça, acho que é o ser diferente dos rapazes a que as raparigas estão habituadas, e se sou diferente, devo ser gay, porque os outros, elas sabem, e eles fazem questão de lhes mostrar todo aquela machismo, que não são... e eu? Eu sou querido, atencioso, dedicado, discreto, modesto, romântico, que pensa em casar e no nome das filhas... o oposto do Macho Alpha portanto.

Se querem saber a verdade, esta conclusão foi uma desilusão. Queria mesmo ter conseguido encontrar qualquer coisa que eu estivesse a fazer obviamente mal, para a deixar de fazer e ficar tudo bem outra vez, sem equivocos, mas não há. Eu não estou a fazer nada mal, nenhuma das coisas que faço, são os outros tipos todos, e ainda que eu me consiga mudar a mim, não os consigo mudar a eles, logo não há nada a fazer. Mesmo que eu acredite que sou como os rapazes devem ser, atenciosos, educados, cortês, e que sejam os outros todos que estão mal, e como consequencia, induzem a erro as raparigas com quem se dão me acham depois afemeninado por comparação. Mesmo que seja eu que estou certo, e todos os outros errados, não há nada a fazer, porque ao fim do dia, eu sou sempre ser a minoria, e não tenho outra hipotese que não seja continuar a ver o meu cavalheirismo ser confundido com homosexualidade, até ao dia em que alguem perceba a diferença e reconheça o valor.

O que nos remete para o meu outro (e tão maior) problema ...




P.S. - Se começo a escrever textos sob o titulo "Os Meus Problemas (Parte ?)", tenho problemas que cheguem para mais 10 anos blog.

An Abundance of Katherines

"When it comes to girls (and in Colin’s case, it so often did), everyone has a type. Colin Singleton’s type was not physical but linguistic: he liked Katherines. And not Katies or Kats or Kitties or Cathys or Rynns or Trinas or Kays or Kates or, god forbid, Catherines. K-A-T-H-E-R-I-N-E. He had dated 19 girls. All of them had been named Katherine. And all of them -every single solitary one- had dumped him"

John Green

An Awesome Book



By Dallas Clayton

Daddy's Little Girls

Quero bue uma filha! Hoje não que já é tarde, mas amanhã, cedinho, assim que começar o dia! Agora a sério. Quero mesmo, eventualmente, quando a vida deixar. É este o ponto a que chegou a minha desilusão com mulheres, que me leva a achar que se alguma vez hei-de conseguir encontrar uma que eu possa amar incondicionalmente sem nunca me arrepender, vou ter de ser eu a "fazê-la".

Não é de agora, há imensos anos que penso nela, na filha que eu gostava de ter, o nome, os olhos da mãe, o cabelo ou a maneira como dorme no meu peito. De tanto a imaginar, ela foi-se tornando um bocadinho mais verdade. Para isso, ela precisava duma mãe, e a escolha não foi muito complicada. A Ana Linda, a minha paixão de adolescente, já não nos vimos há uns 10 anos, desde que ela se mudou para o Recife. É das pessoas mais inteligentes que conheço, e eu não digo isto de muita gente, do tipo de inteligente que salta um ano na escola, saudável, girissima, olhos claros... óptimos genes!

E foi assim que em Setembro de 2005, com pouco mais de 3kg imaginários nasceu a Alice. Foi um bebé extraordinário, nunca fez birras nem nos tirou noites de sono, até porque na nossa ideia, desde que ela existe que sempre teve 5 anos, já nasceu com eles, e todos estes anos depois continua com os 5 anos com que nasceu. Se calhar somos só nós que nos recusamos a ver que a nossa menina está a crescer, mas tanto quanto queremos saber, a Alice há-de sempre ter 5 anos, mas há outra particularidade sobre a Alice que vocês deviam saber.

Uns tempos depois da Alice nascer, eu fui ao café com o Nelson e a Rute e o filho deles, o Rafael (o Rafael existe mesmo). A dada altura enquanto nós iamos pondo a conversa em dia, o Rafael estava a brincar junto à mesa onde estavamos a beber café, e tropeçou numa daquelas bases em chapa quadradas com um tubo soldado a meio que são usadas para segurar os guarda-soís. Ao tropeçar na base da chapa, caiu para trás e ficou sentado no chão, e ao sentar-se a cabeça dele foi para a frente tipo chicote, até ficar perigosamente perto do tubo espetado a meio da chapa. O meu coração parou só de imaginar o que podia ter acontecido, quando cheguei a casa, falei com a Ana e disse que o mundo era um sitio demasiado perigoso para a Alice, e que daquele dia em diante, para nos assegurármo de que nada lhe acontecia, era imperativo que ela usasse um genero de protecção a todas as horas, e foi assim que a Alice passou a viver dentro dum escafandro.

Desde o nascimento da Alice que eu e a Ana vamos trocando comentários no mural de Facebook um do outro sobre as necessidades da nossa filha imaginária, o que ela precisa, leite, livros para a escola, um vestido novo ou ir buscar o escafandro à lavandaria. Quando nos chateamos, eu digo que quero a custódia da Alice, e ela que não me dá o divórcio.

Como não quero que a Alice cresca filha unica, imaginei-lhe uma irmã com quem ela brinca ás bonecas, ás casinhas, e organiza lanches e horas de chá. Chama-se Amélia, e é obviamente mais nova, nasceu em Dezembro do ano passado, já com os 3 anos que há-de preservar para o resto da vida, adora a irmã, segue-a para todo o lado em passinhos mais pequenos... Enquanto a Alice sái à mãe, lourinha com olhos claros, a Amélia sai a mim, morena, "cabelos cor de viúva", olhos escuros, enormes! Adoro-as!... que estupidez, nem sequer existem e são os amores da minha vida.

Hoje à tarde estava a ouvir música, e o shuffle aterrou em Carlos Mendes que começou a cantar a "Amélia dos Olhos Doces" e não sei se é por andar mais em baixo que tenho de me virar para as mulheres que inventei para me distrair dos estragos que as de verdade deixam em mim. Enquanto ouvia a música, dei por mim a cantá-la baixinho, a marcar o ritmo com que embalava um berço cor-de-rosa onde a minha Amélia adormecia agarrada ao meu dedo. Ao pensar na Amélia, pensei na Alice mas ela não estava. Não estava porque não existe, e ao pensar nisso, desapareceu a Amélia também, e eu fiquei ali, tão sozinho, tão triste, como quem tinha acabado de perder filhas de verdade. Puxei o perfil da Ana no facebook do telefomovel e deixei-lhe no escrito no mural...

"Há dias em que sinto, muito para lá do que seria normal, a falta das filhas que não temos."


Para a Alice e a Amélia, as metades do meu coração, para daqui a muitos anos poderem ler o quanto o papá as queria, muito antes de as ter.

Gaelic -> Português

Go n-éirí an bóthar leat.
Go raibh an chóir ghaoithe i gcónaí leat.
Go dtaitní an ghrian go bog bláth ar do chlár éadain,
go gcuire an bháisteach go bog mín ar do ghoirt.
Agus go gcasfar le chéile sinn arís,
go gcoinní Dia i mbosa a láimhe thú.

Que a tua viagem seja bem sucedida.
Que o vento esteja nas tuas costas.
Que o luz do sol aqueça a tua cara,
Que a chuva caia nos teus campos.
E até nos encontrarmos outra vez,
Que Deus te guarde na palma da mão.
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