Daddy's Little Girls

Quero bue uma filha! Hoje não que já é tarde, mas amanhã, cedinho, assim que começar o dia! Agora a sério. Quero mesmo, eventualmente, quando a vida deixar. É este o ponto a que chegou a minha desilusão com mulheres, que me leva a achar que se alguma vez hei-de conseguir encontrar uma que eu possa amar incondicionalmente sem nunca me arrepender, vou ter de ser eu a "fazê-la".

Não é de agora, há imensos anos que penso nela, na filha que eu gostava de ter, o nome, os olhos da mãe, o cabelo ou a maneira como dorme no meu peito. De tanto a imaginar, ela foi-se tornando um bocadinho mais verdade. Para isso, ela precisava duma mãe, e a escolha não foi muito complicada. A Ana Linda, a minha paixão de adolescente, já não nos vimos há uns 10 anos, desde que ela se mudou para o Recife. É das pessoas mais inteligentes que conheço, e eu não digo isto de muita gente, do tipo de inteligente que salta um ano na escola, saudável, girissima, olhos claros... óptimos genes!

E foi assim que em Setembro de 2005, com pouco mais de 3kg imaginários nasceu a Alice. Foi um bebé extraordinário, nunca fez birras nem nos tirou noites de sono, até porque na nossa ideia, desde que ela existe que sempre teve 5 anos, já nasceu com eles, e todos estes anos depois continua com os 5 anos com que nasceu. Se calhar somos só nós que nos recusamos a ver que a nossa menina está a crescer, mas tanto quanto queremos saber, a Alice há-de sempre ter 5 anos, mas há outra particularidade sobre a Alice que vocês deviam saber.

Uns tempos depois da Alice nascer, eu fui ao café com o Nelson e a Rute e o filho deles, o Rafael (o Rafael existe mesmo). A dada altura enquanto nós iamos pondo a conversa em dia, o Rafael estava a brincar junto à mesa onde estavamos a beber café, e tropeçou numa daquelas bases em chapa quadradas com um tubo soldado a meio que são usadas para segurar os guarda-soís. Ao tropeçar na base da chapa, caiu para trás e ficou sentado no chão, e ao sentar-se a cabeça dele foi para a frente tipo chicote, até ficar perigosamente perto do tubo espetado a meio da chapa. O meu coração parou só de imaginar o que podia ter acontecido, quando cheguei a casa, falei com a Ana e disse que o mundo era um sitio demasiado perigoso para a Alice, e que daquele dia em diante, para nos assegurármo de que nada lhe acontecia, era imperativo que ela usasse um genero de protecção a todas as horas, e foi assim que a Alice passou a viver dentro dum escafandro.

Desde o nascimento da Alice que eu e a Ana vamos trocando comentários no mural de Facebook um do outro sobre as necessidades da nossa filha imaginária, o que ela precisa, leite, livros para a escola, um vestido novo ou ir buscar o escafandro à lavandaria. Quando nos chateamos, eu digo que quero a custódia da Alice, e ela que não me dá o divórcio.

Como não quero que a Alice cresca filha unica, imaginei-lhe uma irmã com quem ela brinca ás bonecas, ás casinhas, e organiza lanches e horas de chá. Chama-se Amélia, e é obviamente mais nova, nasceu em Dezembro do ano passado, já com os 3 anos que há-de preservar para o resto da vida, adora a irmã, segue-a para todo o lado em passinhos mais pequenos... Enquanto a Alice sái à mãe, lourinha com olhos claros, a Amélia sai a mim, morena, "cabelos cor de viúva", olhos escuros, enormes! Adoro-as!... que estupidez, nem sequer existem e são os amores da minha vida.

Hoje à tarde estava a ouvir música, e o shuffle aterrou em Carlos Mendes que começou a cantar a "Amélia dos Olhos Doces" e não sei se é por andar mais em baixo que tenho de me virar para as mulheres que inventei para me distrair dos estragos que as de verdade deixam em mim. Enquanto ouvia a música, dei por mim a cantá-la baixinho, a marcar o ritmo com que embalava um berço cor-de-rosa onde a minha Amélia adormecia agarrada ao meu dedo. Ao pensar na Amélia, pensei na Alice mas ela não estava. Não estava porque não existe, e ao pensar nisso, desapareceu a Amélia também, e eu fiquei ali, tão sozinho, tão triste, como quem tinha acabado de perder filhas de verdade. Puxei o perfil da Ana no facebook do telefomovel e deixei-lhe no escrito no mural...

"Há dias em que sinto, muito para lá do que seria normal, a falta das filhas que não temos."


Para a Alice e a Amélia, as metades do meu coração, para daqui a muitos anos poderem ler o quanto o papá as queria, muito antes de as ter.
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