Ferida que não, Sara.

Tenho saudades do som do teu nome ao deixar os meus lábios ou da combinação de teclas que o escrevem no inicio de uma mensagem, o tom do teu toque seguido da tua voz do outro lado da linha quando o telemovel toca. Da tua pronúncia automática mediante quem te telefona. Do angulo absurdo da tua calçada e do Cardeal, da largura ridicula da porta de entrada e o ranger da madeira das escadas ao subir os degraus para a tua casa. Dos teus lençois polares e da tua cama de corpo e meio, das noites em que foi minha também. Das noite que foste minha também e as minhas costas marcadas pelo cravar dos teus dedos. Acordar ao teu lado na manhã seguinte com o sol a entrar pela clarabóia que a parede corta a meio, os teus pés em cima dos meus e o teu respirar no meu pescoço interrompido pelo "Sol", "Fá", "Lá" da estação a anunciar que "o comboio estacionado na linha número dois é o IC com destino a Porto-Campanhã e partida prevista para as 11:30". Do teu cheiro em mim e as tuas mãos de princesa na ponta dos braços enrolados à minha volta. O record mundial a cada manhã, de "acabada de acordar" a "miúda mais gira que eu já vi" em três minutos e meio! O som de arranque do Windows, vindo do quarto alemão logo pelo raiar do dia! Das tuas botas espalhadas pelo chão e até do par de tenis que odeio. De todos os teus tons de castanho e da cortina que os esconde. Do autoritário "tapa os olhos!" na hora dos teus truque de senhora, e a surpresa com a minha pronta obdiência. Das borboletas a comerem-me a barriga e o coração em esteroides antes de chegar ao pé de ti. De um dia inteiro a pensar na surpresa que ia preparar desta vez. Saudades das que fiz, e das que pensei e ficaram por fazer. Flores, balões, e um frigorifico atestado de Häagen-Dazs (Chocolate Midnight Cookies), uma sandes com pouca manteiga. Do teu riso escancarado e a chacota inevitável ao meu ridiculo sentido de orientação, quando o meu suposto atalho calhava ser 3kms mais longo e 10 minutos mais demorado. Mas mais que isso, mais que o resto, saudades da tua boca feita por medida a pensar na minha e de tudo o que tem agarrado a ela, do sincronismo natural das voltas dos teus lábios nos meus, das voltas dos meus lábios nos teus.
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