Os Limites da Felicidade

"Há-de por certo haver alguém que eu reconheça por entre a multidão sem hesitar!" ... e se ela não me reconhecer a mim?

Uma amiga minha contou-me no outro dia que ia a chegar a casa, quando o tipo do carro de trás começa a dizer-lhe adeus, mandar beijinhos, fazer sinais de luzes. "Depois da terceira curva que ele fez atrás de mim comecei a ficar assustada, mas lá o consegui despistar." E se fosse ele? O tal?

Imaginem que eu vou na Auto-Estrada do Sul a caminho de Lisboa, e passo por ela, pela Tal, e "reconheço-a sem hesitar!" O que é que eu faço, sabendo que se não lhe disser qualquer coisa ali, a volto a perder? Sigo-a? Faço adeus ou mando beijinhos, peço-lhe para encostar? Sabemos todos que isso não funciona. Aponto a matricula do carro e dou 20 voltas ao mundo para a tentar encontrar? Já tentei, não resultou., ou melhor, resultou, encontrei-a, mas conseguir encontrar alguém pela matricula do carro (ou pelo talão do multibanco) é só tido como assustador, e nada romântico.

Vamos tornar as coisas mais fáceis, vamos imaginar que me cruzo com ela na rua, e posso até ir falar com ela, o que é que eu lhe digo? "Desculpa, eu sei que não nos conhecemos nem nada, mas se tiveres 5 minutos podíamos sentar-nos no primeiro café que encontrássemos e mudar isso. Eu chamo-me Zé." ... estão mesmo a ver isso funcionar? As raparigas que acham que sim, digam-me lá quantas vezes estiveram receptivas a uma abordagem dessas, ou casaram com o tipo "prestável" que veio só corrigir-vos a postura no ginásio? E os rapazes que as imaginam dizer que sim, os meus parabéns, são muito mais giros e têm muito mais jogo do que eu.

A verdade é que tudo aquilo que não acontece de uma forma natural, é forçado, por maior que seja a naturalidade com que o fazemos. Por melhores que sejam as nossas intenções, mesmo que nunca tenhamos feito algo assim por ninguém antes, ela não sabe isso, e aquilo a que a sociedade nos habituou, é que quem tem o descaramento de o fazer uma vez, provavelmente já o fez uma centena antes desta, e aposto que todas elas começaram com "Desculpa, eu nunca fiz isto antes mas...".

E até é fácil conhecer alguém naturalmente, quando entrei para a escola fiz 30 amigos novos logo ali! Quando passei para o preparatório e mudei de turma, outros 30, mais uns 300 das outras turmas. Quando cheguei ao secundário, conheci mais uns 40 e os 400 que vieram por acréscimo de todos os outros turnos da tarde. Cheguei à faculdade e foram mais 40, e quando comecei a trabalhar outros tantos. O problema é que se depois dessas etapas em que a vida nos presenteia com uma remessa nova de amigos, as coisas começam-se a complicar.

Pior para mim, leal seguidor da igreja do amor à primeira vista. Ou aconteceu quando a conheci, ou não aconteceu, e se não aconteceu, muito dificilmente vai acontecer depois. Tenho a ideia de que é extremamente difícil apaixonarmo-nos à primeira vista por alguém que conhecemos há 10 anos, mas posso ser só eu.

E é aqui que o verdadeiro problema começa. Se depois de todo este tempo, depois todas essas pessoas que eu conheci naturalmente, por força das circunstâncias, escola, trabalho, amigos, ainda estamos sozinhos, há apenas duas maneiras de abordar a situação. Ou abdicamos da nossa ideia romântica de como tudo ia acontecer, e arriscamos com alguém que ainda que não tenha começado como quem nós queríamos que fosse, e fazemos figas para que isso mude com o tempo. Ou continuamos à espera, mas cientes que não basta encontrá-la na rua, cruzarmos-nos no trânsito, é preciso que se conheçam com a mesma naturalidade como quem esteve sentado na carteira de trás nos nossos tempos de escola, e como é que se fazemos isso?

Não fazemos, tem de ser os amigos a fazer por nós. Um jantar na casa do Pedro em que a prima de Castelo Branco também foi, o aniversário do Luís, com as colegas do curso de enfermagem. Ir sair à noite com a Ana, mais as amigas dela. Passa sempre por eles. Pelos amigos. Se não conhecemos por nós, vamos ter de a conhecer por eles, porque muito dificilmente conseguimos conhecer quem não conhecemos duma maneira casual, sem dar um ar de engate. Não podemos ser felizes com qualquer pessoa do mundo, com quem seja que for que passe por nós na rua, tem de haver uma ligação, uma razão para ela entrar na nossa vida sem a puxármos, o que quer dizer que o universo de pessoas com quem eu posso ser feliz, baixou do mundo inteiro, para o meu numero de amigos e os amigos que eles teem, são esses os limites da nossa felicidade.

Mas nunca há nada tão mau, que não possa ficar pior. Quantas vezes vão mudar de casa e fazer amizade com a nova vizinha do outro lado do Hall? De trabalho? Garanto-vos que a maioria das pessoas que vão conhecer na vida, já as conhecem agora, e que o numero de pessoas que vão conhecer daqui em diante, é muito inferior ao daquelas que já conhecem. A probablidade está contra nós. Se ela não estava entre as 10.000 pessoas que conheço, a probabilidade de estar entra as 1000 que ainda vou conhecer é 10% das que tive nas 10.000 e nem com essas todas funcionou.

Quantos amigos fizeram hoje? Ontem? Esta semana? Este mês? Pessoas com quem mantiveram contacto? Com quem continuaram a falar? Marcaram um café? Comigo não foram assim tantas. Quantas dessas vos despertaram a atenção? Por quantas se apaixonaram à primeira vista? Esta é a parte em que eu tento introduzir uma nota mais optimista, a ideia de que não é tão mau assim, ou de que tudo vai acabar bem, mas não tenho nada de inspirador para partilhar, e o pensamento que guardo, é o de que não é só o estar sozinho, é o estar cada vez mais sozinho.
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