Don't Die Wondering

Há uns tempos ouvi uma história de um homem de 42 anos que assaltou um banco. Foi apanhado, preso, e condenado a 18 anos de cadeia. Já com 60 anos, 18 anos depois, um mês antes de sair em liberdade, foi-lhe agravada a pena em 12 anos por ter saltado o muro usando num trampolim de elasticos cosidos a uma caixa de madeira que tinha construido na horas de carpintaria. Quando lhe perguntaram porquê tentar fugir um mês antes de completar a pena ele respondeu:

- "Desde que lá entrei que penso em fugir. Fui juntando elásticos, coleccionando-os. Tirava os que encontrava na biblioteca, de volta de papeis soltos, de vez em quando este ou aquele recluso arranjavam-me mais um, as visitas conseguiam contrabandear uma mão cheia deles de cada vez, subornei um parceiro de cela que usava aparelho para me dar todos os que ele tinha. Todos os dias juntei elásticos e sonhei com um trampolim, imaginei-me a saltar por cima daquele muro. Construir a caixa na oficina foi fácil, mas juntar todos aqueles elásticos ... levei 18 anos até ter elásticos suficientes, ias-os cosendo uns aos outros e um dia tinha uma manta de elásticos para juntar àquela caixa de madeira para o meu trampolim. Acabei um mês antes de sair em liberdade. "Porque?", foi o mesmo que eu me perguntei! Faltava um mês para estar livre "que diferença faz?!", "Esquece isso!" dizia para mim, e esqueci, e ao esquecer, uma parte de mim morreu! 18 anos a planear algo, sem nunca saber se ia conseguir, se ia funcionar. Quando saí nessa noite disse para mim "vou só ver, não tenho mesmo de saltar o muro, só ver!" e cada vez saltava mais alto, como se estivesse a voar, parecia que tinha asas! Não podia ficar sem saber, eu tinha de tentar! Pular para o outro lado! Eu sabia que era estupido, mas durante 18 anos sonhei com aquele momento e quando dei por mim, estava do outro lado do muro. Cai redondo do lado de lá da vedação e lá fiquei estendido, pensei que tinha partido todos os ossos do meu corpo, mas nunca me senti tão livre quanto naquele instante, e se tiver de morrer na prisão por isso, que seja, mas eu tinha de tentar, eu tinha de saber."

*

Quem Não Dava a Vida Por Um Amor?

O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando.

Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil. Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores.

Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.

O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mai tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.

O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?

Miguel Esteves Cardoso in Ultimo Volume

An Awesome Book of Thanks!



By Dallas Clayton

4:53 AM

Vou-me deitar, e se me esquecer de te dizer quando acordar... sonhei contigo!

I Know

So be it, I'm your crowbar
If that's what I am so far
Until you get out of this mess
And I will pretend
That I don't know of your sins
Until you are ready to confess
But all the time, all the time
I'll know, I'll know
And you can use my skin
To bury secrets in
And I will settle you down
And at my own suggestion,
I will ask no questions
While I do my thing in the background
But all the time, all the time
I'll know, I'll know
Baby-I can't help you out, while she's still around
So for the time being, I'm being patient
And amidst this bitterness
If you'll just consider this
even if it don't make sense
All the time, give it time
And when the crowd becomes your burden
And you've early closed your curtains,
I'll wait by the backstage door
While you try to find
the lines to speak your mind
And pray it open, hoping for an encore
And if it gets too late, for me to wait
For you to find you love me, and tell me so
It's ok... don't need to say it.

Fiona Apple

NO EXTRADITION!

Quando a Lacey acabou comigo eu achei que a minha vida ia acabar. Ela era única, e sabia que aquilo que estava a perder ao perde-la era algo que nunca ia conseguir recuperar com mais ninguem que eu conhecesse. E ela era de facto única, ou única na minha vida, e é fácil perceber porquê. Era americana, e a maior parte das raparigas que eu conheço são portuguesas. Nasceu e sempre viveu na terrinha de Logansport, no condado de Cass County no estado do Indiana, a maioria das minha amigas moram em Lisboa. O primeiro trabalho dela, foi a ganhar $5 à hora a ajudar o avô a ordenhar vacas na quinta dele. Foi a rainha do baile de finalistas dum liceu onde está decretado o dia "Guiar o teu tractor para a escola". Ganhou uma bolsa de estudo para a faculdade. Andava em DePauw, pertencia à irmandade "Alpha Phi", era portanto uma "Phi Bear" e comprimentava as "irmãs" que passavam por ela no campus com "A.O.E.", e era contra as regras da "sorority" ela dizer-me o que significava, mas eu sabia ser "Alethea, Ereno, Oeteron", ou "Truth Has a Friend In Heaven", e a ficarmos juntos, metade da minha vida passaria pelos Estados Unidos, a viver no Mid-West numa casa de cerca branca e filhos chamados Jack e Frances.

Fiquei destroçado, as coisas que eu ia perder, que não ia conseguir recuperar com mais ninguem, e a certeza que depois de as ter tido, ia ser incapaz de viver sem elas, e tudo o que ela levava com ela ao ir embora. Mas era mais que quem ela era, era também o que ela fazia, tão natural entre raparigas como ela, mas tão novidade para mim. A primeira palavra que me pediu para lhe explicar o que significava foi "tá" e eu não fazia ideia do que ela queria dizer, que essa palavra não existia e que eu não dizia isso de certeza! Ela assegurava que eu a usava umas 50 vezes no fim de cada conversa, "tá tá tá, tá tá tá tá tá tá" dizia ela, e eu continuava sem perceber. Pedi para me chamar a atenção a proxima vez eu estivesse a falar no skype com a minha mãe, e no dia seguinte assim foi. Depois de 20 minutos de conversa a contar-lhe do meu dia, e de todas as recomedações de uma mãe a um filho que está longe como "come bem", "deita-te cedo", "agasalha-te!", "não gastes muito dinheiro", eu comecei a responder, já saturado, "Está bem mãe. Está bem, sim, tá! Tá, tá, tá, tá!" e ao quarto "tá", dei conta do que estava a dizer e olhei para ela sentada ao meu lado, que me olhava com ar mais condescendente do mundo. Hilariante!

Ela era hilariante. A primeira frase que quis aprender em português foi "Quem é que tem dois polegares aqui e é um génio? Esta miúda!" enquanto os usava para apontar para ela! Quis aprender a dizer "Doghouse" para me mandar ir dormir na casota sempre que nos chateavamos, e então passou a vida a dizer "Zé?! Casa di cão!?" na pronuncia mais divertida que podem imaginar, e sempre que eu gozava com qualquer coisa dela, ela respondia num português muito rudimentar "Não divertido!" ao que eu respondia com "Muito divertido" e ela rematava com "Mintira!" mesmo que ás vezes fosse "Verdad!". Quando a minha mãe e a Inês me foram visitar e iamos os quatro no metro, ela pediu-me em segredo para lhe ensinar uma frase complicada de dizer para causar boa impressão à sogra, eu ensinei-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça, e à medida que saiamos da carruagem ela olha para elas com o ar mais empertigado do mundo e diz "Três tristes tigresa" como quem tinha acabado de decifrar o genoma humano. Gostava do som de "minha querida" e respondia com "Zézinho Fofinho" que era a unica rima que ela conseguia fazer. Pediu-me para lhe traduzir o nome, e eu disse que não havia nada que o traduzisse, mas que "Lace" era renda, e que Lacey seria "rendado" ou "rendinha" e ela respondeu "tua rendinha!" dizendo-me que era minha, e ficou "Rendinha" daí em diante. O mais dificil para ela, era saber quando usar "Bom", "Boa" ou "Bem", uma vez perguntei-lhe como é que estava o jantar e ela respondeu "muito boa" eu disse-lhe que não era "boa" e ela empinou o nariz e respondeu "A comida!", eu a riu e digo "És muito esperta não és?" e ela respode "Génio!". De entre as frases preferidas dela estavam ainda "Eu nãn seiiiiii" acompanhado sempre por um virar das palmas das mãos para cima e um "Muito cannnsada!" dito num suspiro! Era já fluente em, boa tarde, boa noite, bom dia, olá, tudo bem? Muito bem? E contigo? Obrigado e beijinhos! Beijinhos! Adorava dizer "beijinhos", chegou mesmo a transformá-lo num verbo e praticavamos "beijinhos" no roupeiro.

Na altura soube, como sei agora, que tinha perdido tudo isso quando a perdi a ela, que nenhuma outra namorada me ia falar naquele português remendado, com aquela pronuncia esforçada, dizer as coisas que ela dizia da maneira que ela as dizia, e que sem ela, a minha vida nunca mais ia ser a mesma, que nunca ia ser capaz de a esquecer ou de viver sem ela, que nada ia voltar a ficar bem outra vez, ou de eu ser feliz, ela tinha-me estragado para sempre e nada ia voltar a ser o mesmo. Havia outra coisa que ela dizia de lábios semi-cerrados com a pior imitação de uma pronuncia fancesa que conseguia espremer e de olhos entreabertos murmurava "NO EXTRADION" era hilariante. Acabámos há pouco mais de um ano, achei que nunca ia esquecer nada disto, e pela vida em mim, não me lembro de onde é que isso veio.

Para o nosso primeiro "date" fomos beber frozen margaritas ao Lauriol Plaza em Dupont Circle, para o segundo, sei que fomos beber caipirinhas, mas já não me lembro onde, algures perto de chinatown. Uma noite no nosso apartamento, ela pediu-me para lhe arranjar o Ipod. Não consegui, mas para os anos dela o ano passado, comprei-lhe um novo em cor-de-rosa e mandei gravar na parte da trás "For Lacey, my rendinha", carreguei a discografia das bandas preferidas dela e mandei-o pelo correio para lhe ser entregue como prenda de anos. Já tinhamos acabado então e ela não fez questão de agradecer mas a guia dos correios diz-me que o recebeu ás 13.05 no dia de anos dela, 11 de Junho do ano passado. E foi isso que me apercebi hoje, que a miúda que eu tinha certeza que nunca ia esquecer fez anos há 3 dias, e eu, juro por Deus, esqueci-me.

O Meu É Teu!

O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.
O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso,
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.

Dizem que sou. Dizem que faço,
que tenho braços e pescoco
- que é da cabeça que desfaço,
que é dos poemas que eu não ouço?
O meu é teu. O teu é meu,
e o nosso, nosso quando posso
olhar de frente para o céu
e sem o ver galgar o fosso.

Mas tu és tu e eu sou eu
não vejo o fundo ao nosso poço,
o meu é meu dá-me o que é teu
depois veremos o que é nosso.


Amália

Kübler-Ross

1. Denial

2. Anger

3. Bargaining

4. Depression

5. Acceptance

Le Tigre Y La Nieve

"Al-Giumeili bello, trovami la glicerina. Se non me la trovi, quella muore. Se muore lei, per me questa messa in scena del mondo che gira... Possono smontare tutto, arrotolare il cielo e caricarlo su un camion, possono spegnere la luce del sole che mi piace tanto, e sai perché? Perché mi piace lei illuminata dalla luce del sole. Possono portare via tutto, questi tappeti, i palazzi, la sabbia, il vento, le rane, i cocomeri maturi, la grandine, le 7 di sera, maggio, giugno, luglio, il basilico, le api, il mare, le zucchine... Le zucchine! Al-Giumeil, trovami questa glicerina!"

Um História de Amor, Mais ou Menos.

Parecia ter começado ontem, mas há meio ano que aquele romance existia em segredo. As amigas dela sabiam, os amigos dele também, mas os amigos dos dois estavam longe de imaginar, e para manter as aparências, no fim de cada noite, ele era sempre o último a voluntariar-se para a levar ao carro não fosse alguém desconfiar.

Este teatro custava-lhe a vida. Era a miúda dos sonhos dele, mas a miúda dos sonhos dele, tinha sonhos só dela, sonhos em que ele não entravam. Ele só pensava nela, ela, pensava em outras coisas, mas ele gostava demasiado dela para se importar, agarrava cada bocadinho que conseguisse agarrar, aquele que ela estivesse diposta a dar, e ia ser o tipo com quem ela se deita, as vezes que fossem precisas até se tornar no tipo com que ela acorda.

Esse fim de noite não foi diferente, depois das despedida, outro alguém a levou ao carro e ele meteu-se no dele, seguiu tão vagarosamente quanto possivel para a ponta oposta de Lisboa onde morava na esperança que ela se livrasse da boleia e ligasse para ele, dissesse para ir ter com ela, lhe pedisse para a ir deitar, o convidasse para passar a noite. Ainda não estava longe quando o telefone tocou.

Abriu o pisca mesmo antes de atender e voltou para trás na 2ª circular na 1ª saida que encontrou. "Estou perdida, vou ficar sem gasolina, é tarde e eu tenho medo!" disse ela assustada. Ele reconfortou-a com um "Vai correr tudo bem, não tenhas medo" e de fundo ouvia-se as rotações do carro dele a subir, à medida que ele acelerava para a ir salvar. "Acho que já sei é que estou, mas vou ficar sem gasolina." dizia ela "Não vais nada, vai degavarinho." dizia ele já à procura do carro dela. "Sim, já estou a chegar à IC19" respondia ela "Eu estou aqui, não te precupes" dizia-lhe ele.

E assim foram o resto do caminho, com ele a fazer-lhe companhia pelo telefone assegurando-lhe que ela não estava sozinho, que ele estava ali com ela e que não deixava que nada de mal lhe acontecesse. Depois da sair da IC19, ela disse-lhe pelo telefone que tinha encontrado uma bomba, tinha medo de parar por causa da hora, ele disse-lhe para ficar descansada, que tomava conta dela. Ela respondeu "Ohh, como? Não estás aqui!" ... ele respondeu "Eu estou sempre aqui para ti!", deu dois toques nos máximos, e as luzes do carro de trás piscaram.


Para a Dani

Prefácio

«Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Prejudica o amor que muitas vezes o antecede. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Cada um tem o amor que tem, fora dele. É esse afastamento que nos magoa, que nos põe doidos, sempre à procura do eco que não vem. Os que vêm são bem-vindos, às vezes, mas não são os que queremos. Quando somos honestos, ou estamos apaixonados, é apenas um que se pretende.

Tenho a certeza que não se pode ter o que se ama. Ser amado não corresponde jamais ao amor que temos, porque não nos pertence. Por isso escrevemos romances — porque ninguém acredita neles, excepto quem os escreve.

Viver é outra coisa. Amar e ser amado distrai-nos irremediavelmente. O amor apouca-se e perde-se quando se dá aos dias e às pessoas. Traduz-se e deixa de ser o que é. Só na solidão permanece. […]

Tenho o meu amor, como toda a gente, mas não o usei. Tenho também a minha história, mas não a contei. O romance que escrevi, escrevi-o para quem não quer saber dos amores ou das histórias de ninguém. Não contei nem inventei nada. Não usei nem pessoas nem personagens. Fugi. Quis mostrar que pertencia ao mundo onde o amor, como as histórias e os romances, existem só por si. Como se me dirigisse a alguém. Outra vez.

É sempre arrogante e pretensioso escrever sobre uma coisa que se escreveu. Apenas posso falar do que foi a minha vontade: escrever sobre o amor, sem traí-lo, defini-lo ou magoá-lo; deixando-o como era, antes da primeira palavra que escrevi. Seria inadmissível pôr-me aqui a cismar se consegui ou não fazer o que eu queria. Como seria dizer que não sei. Sei. Sei que não consegui. Só espero não tê-lo conseguido bem.»

Miguel Esteves Cardoso sobre "O Amor É Fodido"

A Man Falls Into a Hole

Um tipo está a descer a rua e cai dentro de um buraco com paredes tão ingremes que ele não consegue sair. Nisto passa um médico e o tipo diz, “Hey doutor! Estou aqui preso, podia ajudar-me?” O médico passa-lhe uma receita, atira-a para dentro do buraco e vai à sua vida. Um pouco depois passa um Padre, e ele volta a gritar, “Snr. Padre, estou preso neste buraco. Será que me podia ajudar?” O padre escreve uma oração num papel, atira-lha para o buraco onde está, e vai-se embora. Nisto passa um amigo, e ele grita “Ohhh Zé! Opah estou aqui preso neste buraco, ajuda-me lá a sair daqui!” e antes que ele conseguisse acabar a frase, o amigo salta para dentro do buraco também, e o nosso tipo diz, “Mas tu és estúpido? Agora estamos os dois aqui presos!” e o amigo responde, “Eu sei, mas eu já aqui estive em baixo, e sei tirar-nos daqui.”

em Os Homens do Presidente
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