NO EXTRADITION!

Quando a Lacey acabou comigo eu achei que a minha vida ia acabar. Ela era única, e sabia que aquilo que estava a perder ao perde-la era algo que nunca ia conseguir recuperar com mais ninguem que eu conhecesse. E ela era de facto única, ou única na minha vida, e é fácil perceber porquê. Era americana, e a maior parte das raparigas que eu conheço são portuguesas. Nasceu e sempre viveu na terrinha de Logansport, no condado de Cass County no estado do Indiana, a maioria das minha amigas moram em Lisboa. O primeiro trabalho dela, foi a ganhar $5 à hora a ajudar o avô a ordenhar vacas na quinta dele. Foi a rainha do baile de finalistas dum liceu onde está decretado o dia "Guiar o teu tractor para a escola". Ganhou uma bolsa de estudo para a faculdade. Andava em DePauw, pertencia à irmandade "Alpha Phi", era portanto uma "Phi Bear" e comprimentava as "irmãs" que passavam por ela no campus com "A.O.E.", e era contra as regras da "sorority" ela dizer-me o que significava, mas eu sabia ser "Alethea, Ereno, Oeteron", ou "Truth Has a Friend In Heaven", e a ficarmos juntos, metade da minha vida passaria pelos Estados Unidos, a viver no Mid-West numa casa de cerca branca e filhos chamados Jack e Frances.

Fiquei destroçado, as coisas que eu ia perder, que não ia conseguir recuperar com mais ninguem, e a certeza que depois de as ter tido, ia ser incapaz de viver sem elas, e tudo o que ela levava com ela ao ir embora. Mas era mais que quem ela era, era também o que ela fazia, tão natural entre raparigas como ela, mas tão novidade para mim. A primeira palavra que me pediu para lhe explicar o que significava foi "tá" e eu não fazia ideia do que ela queria dizer, que essa palavra não existia e que eu não dizia isso de certeza! Ela assegurava que eu a usava umas 50 vezes no fim de cada conversa, "tá tá tá, tá tá tá tá tá tá" dizia ela, e eu continuava sem perceber. Pedi para me chamar a atenção a proxima vez eu estivesse a falar no skype com a minha mãe, e no dia seguinte assim foi. Depois de 20 minutos de conversa a contar-lhe do meu dia, e de todas as recomedações de uma mãe a um filho que está longe como "come bem", "deita-te cedo", "agasalha-te!", "não gastes muito dinheiro", eu comecei a responder, já saturado, "Está bem mãe. Está bem, sim, tá! Tá, tá, tá, tá!" e ao quarto "tá", dei conta do que estava a dizer e olhei para ela sentada ao meu lado, que me olhava com ar mais condescendente do mundo. Hilariante!

Ela era hilariante. A primeira frase que quis aprender em português foi "Quem é que tem dois polegares aqui e é um génio? Esta miúda!" enquanto os usava para apontar para ela! Quis aprender a dizer "Doghouse" para me mandar ir dormir na casota sempre que nos chateavamos, e então passou a vida a dizer "Zé?! Casa di cão!?" na pronuncia mais divertida que podem imaginar, e sempre que eu gozava com qualquer coisa dela, ela respondia num português muito rudimentar "Não divertido!" ao que eu respondia com "Muito divertido" e ela rematava com "Mintira!" mesmo que ás vezes fosse "Verdad!". Quando a minha mãe e a Inês me foram visitar e iamos os quatro no metro, ela pediu-me em segredo para lhe ensinar uma frase complicada de dizer para causar boa impressão à sogra, eu ensinei-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça, e à medida que saiamos da carruagem ela olha para elas com o ar mais empertigado do mundo e diz "Três tristes tigresa" como quem tinha acabado de decifrar o genoma humano. Gostava do som de "minha querida" e respondia com "Zézinho Fofinho" que era a unica rima que ela conseguia fazer. Pediu-me para lhe traduzir o nome, e eu disse que não havia nada que o traduzisse, mas que "Lace" era renda, e que Lacey seria "rendado" ou "rendinha" e ela respondeu "tua rendinha!" dizendo-me que era minha, e ficou "Rendinha" daí em diante. O mais dificil para ela, era saber quando usar "Bom", "Boa" ou "Bem", uma vez perguntei-lhe como é que estava o jantar e ela respondeu "muito boa" eu disse-lhe que não era "boa" e ela empinou o nariz e respondeu "A comida!", eu a riu e digo "És muito esperta não és?" e ela respode "Génio!". De entre as frases preferidas dela estavam ainda "Eu nãn seiiiiii" acompanhado sempre por um virar das palmas das mãos para cima e um "Muito cannnsada!" dito num suspiro! Era já fluente em, boa tarde, boa noite, bom dia, olá, tudo bem? Muito bem? E contigo? Obrigado e beijinhos! Beijinhos! Adorava dizer "beijinhos", chegou mesmo a transformá-lo num verbo e praticavamos "beijinhos" no roupeiro.

Na altura soube, como sei agora, que tinha perdido tudo isso quando a perdi a ela, que nenhuma outra namorada me ia falar naquele português remendado, com aquela pronuncia esforçada, dizer as coisas que ela dizia da maneira que ela as dizia, e que sem ela, a minha vida nunca mais ia ser a mesma, que nunca ia ser capaz de a esquecer ou de viver sem ela, que nada ia voltar a ficar bem outra vez, ou de eu ser feliz, ela tinha-me estragado para sempre e nada ia voltar a ser o mesmo. Havia outra coisa que ela dizia de lábios semi-cerrados com a pior imitação de uma pronuncia fancesa que conseguia espremer e de olhos entreabertos murmurava "NO EXTRADION" era hilariante. Acabámos há pouco mais de um ano, achei que nunca ia esquecer nada disto, e pela vida em mim, não me lembro de onde é que isso veio.

Para o nosso primeiro "date" fomos beber frozen margaritas ao Lauriol Plaza em Dupont Circle, para o segundo, sei que fomos beber caipirinhas, mas já não me lembro onde, algures perto de chinatown. Uma noite no nosso apartamento, ela pediu-me para lhe arranjar o Ipod. Não consegui, mas para os anos dela o ano passado, comprei-lhe um novo em cor-de-rosa e mandei gravar na parte da trás "For Lacey, my rendinha", carreguei a discografia das bandas preferidas dela e mandei-o pelo correio para lhe ser entregue como prenda de anos. Já tinhamos acabado então e ela não fez questão de agradecer mas a guia dos correios diz-me que o recebeu ás 13.05 no dia de anos dela, 11 de Junho do ano passado. E foi isso que me apercebi hoje, que a miúda que eu tinha certeza que nunca ia esquecer fez anos há 3 dias, e eu, juro por Deus, esqueci-me.
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