An Abundance of Katherines (Part I)

Tenho quase a certeza que já nos tinhamos visto antes, porque eu lembro-me de já ter sentido o que senti quando nos apresentaram, a assinatura que alguém que mexe connosco deixa em nós. Faz por estes dias dois anos.

Ela namorava, mas eu não queria saber. Olhava-a mais fixamente e por mais tempo que aquele que devia, e se era apanhado, sorria-lhe antes de desviar o olhar, e aquele bocadinho em que ficamos a olhar um para o outro parecia durar uma eternidade. O namorado não dava por nada, não dava por mim, não dava por ela, não dava pelos olhares, e como a maior parte dos namorados que não sabe a sorte que tem, não lhe dava valor, nem mesmo quando um "O Zé é tão simpático" dizia mais que aquilo que ela queria dizer.

Uma tarde de praia levámos a mota de água connosco e os braços dela à minha volta faziam-me querer rapta-la para meio do mar. Empurrar o acelerador até trancar e arrancar direcção a Marrocos, perdermos a costa de vista, puxá-la à minha volta para o lugar da frente e fazermos amor ali mesmo embalados nas ondas. Uma vontade tão grande e um bikini tão pequeno. Era tão fácil, não fosse eu demasiado cobarde para me atrever para lá dos olhares. E desde essa tarde de Agosto que fiquei a pensar no que podia ter sido.

O verão acabou. Ela voltou para Coimbra e eu para Washington e pouco mais falámos durante um ano. Conheci a Lacey e comecei a namorar eu também, para vos dizer a verdade, pouco mais pensei nela. Voltei para Portugal no fim do ano e no inicio do próximo o meu namoro acabou, e começou, e acabou outra vez continuamos nisto até Abril, altura em que o dela acabava também.

Chegou Junho e com ele a visita de 3 amigos para conhecer Portugal. Os 4 corremos o pais juntos, Porto, Algarve, Beja, Évora, Sintra, Lisboa, vimos tudo o que havia para ver. Carreguei as fotos da nossa "Volta a Portugal em 13 dias" para o Facebook e todo esse tempo depois, no album um comentário dela "Faltou Coimbra!", eu respondi que pior que Coimbra, faltou ela e prometi ir vê-la.

Muito mais dedicada que o que eu era capaz, apressou-se a comprar um cartão de telefone da minha rede para trocarmos mensangens, ligava a meio do dia para dizer que estava a pensar em mim e a contar os dias para me ver, e eu de auto-estima na lama e coração partido pela ex-namorada, rendido a tanto carinho, tanta atenção.

Na semana seguinte, reservei um quarto em Sta. Cristina e fui ter com ela. Encontrámo-nos na pousada e passámos a tarde à beira da piscina a por o ano que passou em dia. Jantámos em Coimbra e ao voltármos os dois para a pousada demos descanso àquela tarde de Agosto.

Na manhã seguinte, a ela inventou uma desculpa qualquer para voltar comigo para Lisboa, entregar uns curriculos ou coisa que o valha. Dei-lhe boleia para baixo e ao fim do dia seguinte fui deixá-la à estação para voltar para cima de comboio. Perguntou-me como é que ficávamos e eu menti-lhe. Menti-lhe por não ter coragem de a magoar com a verdade. Disse-lhe que ia voltar para os Estados Unidos num par de meses e não fazia sentido ficarmos juntos. A verdade é que não era para os Estados Unidos que eu queria voltar mas para a Lacey. Eu tinha um plano (queres fazer rir Deus? Conta-lhe os teus planos!), e ela não fazia parte dele.

Parti-lhe o coração e o silêncio que ficou entre os dois foi só interrompido pelo barulho destorcido dos altifalantes da Gare do Oriente, ao anunciarem que "o comboio a dar entrada na linha número 3 é o Alfa-Pendular com destino a Porto-Campanhã com paragens em Coimbra-B, Aveiro e Vila Nova da Gaia. Despedimo-nos com um beijo com sabor a adeus. Foi a última vez que vi a Catarina.
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