An Abundance of Katherines (Part III)

Acreditam que nunca tinha reparado na relação entre os nomes delas até os escrever?

Penso imenso na Catarina sabem? Acho que quanto pior estamos mais pensamos nas pessoas que nos queriam bem, e ela queria-me bem. Não só queria como me fez bem, numa altura em que eu desesperadamente precisava de alguém. Quando tudo parecia perdido e eu perdido também, quando eu achava que ninguem me queria, ela pegou-me pela mão e disse "eu fico contigo", e tomou conta de mim, e eu estava demasiado cego na altura para compreender, mais que compreender... para dár valor... ao que fez ela por mim. Salvou-me a vida!

Nunca gostei verdadeiramente dela. Nunca foi amor. Foi desejo, paixão, luxúria, capricho, qualquer coisa muito mais superficial que nunca ia ter raízes profundas o suficiente para nos manter juntos no tempo, e no entanto, aqui estou eu, dois anos depois a escrever sobre ela. Não foi amor então, não é amor agora, é outra coisa, algo muito mais eterno. É a estima que lhe ficou, o reconhecimento fora de tempo e o sentimento de culpa que isso trás. Devo-lhe mais que aquilo lhe dei, quando ela me deu tanto e eu retribui com tão pouco. É o peso de consciencia que fica por não ter retribuido o amor que me teve, não com amor, porque não tinha amor para lhe dar, mas com a atenção que ela mercia, o carinho, quando ela o fea por merecer tão mais que por quem a troquei. Fui injusto, e para alguém que tenta ser tão correcto quanto possível com todos, esse é um sentimento que não desaparece facilmente. Quem nos quis bem, fica-nos no coração, quer queiramos quer não!

Sei que a Catarina namora, e imagino-a feliz, mais por a querer imaginar feliz que por a saber feliz. Não sei, mas imaginando-a feliz, o meu sentimento de culpa é atenuado por saber que apesar de tudo ela encontrou a felicidade que merecia. Sei que ela não pensa em mim, e é aqui que a Catarina e a Catherine se tocam para lá do nome e a razão para as explicações dos episódios anteriores. Sei que a Catarina não pensa em mim porque eu não penso na Catherine. E não penso na Catherine porque uma consciencia tranquila é a melhor almofada do mundo, e eu sei que fiz o melhor que pude, tratei-a tão bem quanto sabia e fui tão atencioso com ela quanto possível. A ingratidão com que recebeu o meu afecto, são contas para ela ajustar com a consciência dela e tirar as conclusões que entender. Quem nos quis bem, fica-nos no coração, quer queiramos quer não, quem não nos quis, não.

O meu erro mais grosseiro é achar que o resto do mundo é como eu, e que os meus principios são universais e comuns a toda a gente, e não são. Tenho quase a certeza que a Catherine não perde horas do dia ou noites de sono a pensar no quão injusta foi nas coisas que me disse ou naquilo que fez, e não faz mal. O tempo tem todo o tempo do mundo. O sol não brilha todos os dias e da maneira que o universo está programado, quanto pior estamos mais pensamos nas pessoas que nos queriam bem e a quem retribuimos por tratar mal, e se o resto do mundo for alguma coisa como eu, esse é um sentimento que depois de nos agarrar, não larga mais.
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