Episode II - Attack Of The Clones

Conheço a Ana desde que lembro e desde sempre a nossa relação foi um genero de namoro intermitente que durou toda a puberdade, com as interrupções a que os nossos namoros oficiais obrigavam. Por mais que tentássemos, não conseguiamos ser só amigos e se os dois solteiros calhávamos a cruzár-nos no polivalente, trocavamos um beijo só porque sim. Sempre gostei tanto dela que a escolhi para mãe imaginária das minhas filhas imaginárias. Obvio que todas as minhas namoradas a odiavam, ou odiavam o facto de eu a adorar.

Um dia a Ana mudou-se para Braga, e antes de ir embora perguntou-me como é que as coisas ficavam entre nós. Eu tinha acabado há pouco tempo um namoro com uma rapariga do Porto, a Marta, e disse-lhe que não era capaz de começar outra relação à distância com semanas afastados e viagens de comboio interminaveis em fins-de-semana que acabavam demasiado depressa. Nunca me perdoei por não lhe ter dito que a seguia para o fim do mundo se fosse preciso, ela merecia mais de mim e eu, por comodismo, não dei. Em minha defesa, era novo e parvo e não sabia a asneira que estava a fazer. Aprendi, para variar, da maneira mais dificil, sentindo a falta dela durante os anos que se seguiram ao apercebermo-nos que afinal não é assim tão facil encontrar alguem com quem pudesse ter a relação que tinha com ela, ou preenchesse o vazio que ela deixou. A Ana era insubstituvél, e como sempre, só vi isso depois de a perder.

Vimo-nos mais uma ou outra vez por acaso quando ela calhava a vir passar um fim-de-semana ao Barreiro. Nunca fez questão de me dizer com antecedência que ia cá estar, suponho que também nunca me perdoou não ter ficado com ela, e eu não a censuro, como podia ela perdoar-me quando nem eu me perdoo a mim? Acho que é mais um daqueles casos de "quem nos quer bem, fica-nos no coração, quem não nos quer, não." Ela queria-me bem, e eu não a quis, como tal, ela ficou-me no coração, eu não.

Depois de uns anos em Braga mudou-se para o Recife e por mais estranho que pareça, toda essa distância aproximou-nos outra vez. De alguma maneira, o meu relogio biologico estava mais sintonizado com o fuso horario brasileiro que com o português, e entre o meu deitar tarde e tarde erguer, voltamos a falar mais. Depois fui eu para fora e toda aquela aproximação fez mais sentido. Percebi que quanto mais longe estamos de casa mais nos agarramos ás pessoas que deixámos para trás, e o que a Ana via em mim, não era o que ainda podia haver entre nós, mas o que já tinha havido que ela precisava para matar saudades de casa.

Combinámos passar a passagem de ano em Nova Iorque e uma semana antes, ela diz-me que não ia conseguir ir, um estudo qualquer dum ensaio em que ela estava a trabalhar que ela não podia deixar, e deixou-me sozinho em Nova Iorque. Passado umas semanas, carregou fotos duma viagem a Roma com outro rapaz pela altura em que devia estar em comigo do outro lado do mundo, e uns dias depois marcaram-numa fotos de passagem de ano em Portugal.

Todas as raparigas que entraram na minha vida ultimamente, certificaram-se que me magoaram tanto quanto possivel antes de irem embora e por norma despediram-se do amor que lhes tive com uma facada nas costas. Por muito que custe admiti-lo, a verdade é que de certo modo habituei a isso e não espero muito de ninguém. Esperava dela que fez parte da minha vida, a vida toda, e ainda que nunca o tenha dito em voz alta, foi ao ver essas fotos que toda a estima que eu tinha pela Ana morreu e eu pude arrumá-la de vez. Eu falhei-lhe a ele e ela falhou-me a mim, levou 10 anos, mas estávamos finalmente quites.
Já muito recentemente, num destes dias mais tristes, escrevi um post sobre a Alice e a Amélia, as minhas filhas imaginárias, e colei um link para o texto no perfil de Facebook da mãe delas, a Ana, com algo que dizia "Há dias em que sinto muito mais que aquilo que seria normal, a falta das filhas que não temos." Passado umas horas, ela apagou-o, e eu... apaguei-a a ela.
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