Pretérito, Muito-Mais-Que-Perfeito.

"Há uma óbvia correlação entre a velocidade a que andamos com a nossa vida para a frente, e a que deixamos o passado para trás." Andei uma semana a pensar em como escrever esta frase e isto foi o melhor que arranjei. Não diz nada do que eu queria dizer. Se calhar aquilo em que ando a pensar segue mais ao longo das linhas de "O passado fica para trás à velocidade a que andamos com a nossa vida para a frente", que pode até querer dizer a mesma coisa, se calhar diz, mas para lá de soar melhor, ainda não é isso. De vez em quando acontece-me isto, a impressão de tropeçar numa pagina solta caída do manual de instrucções do Universo, como uma cábula que me é passada debaixo da carteira pelo Arquitecto de Todas as Coisas, desesperado com a minha incapacidade de percepção do óbvio e ver nos meus erros o que insisto em fazer mal. É sempre algo tão obvio que não compreendo como é que não o percebi antes, e explica este ou aquele capítulo da minha vida*. Essa simplicidade torna ainda mais frustrante a incapacidade de arranjar uma frase que lhe faça justiça.

Comecei por imaginar dois pontos que se vão afastando dum eixo imaginário em sentidos opostos onde a velocidade a que um se movia para trás, era influenciado por aquela a que o outro se movia para a frente. Depois percebi que era mais que "influenciar", era ditar! Que o passado fica para trás à mesmíssima velocidade (ou falta dela) a que movíamos a nossa vida para a frente, e o que isto queria dizer é que se não andarmos com a nossa vida para a frente, o passado não fica para trás, e isso, não só faz mais sentido como explicava muito mais coisas. Foi por essa altura que dei conta que o passado não se move, não fica para trás, não ajuda, não colabora, não nos facilita a vida um bocadinho e nem cede um milímetro que seja para nos ajudar a seguir em frente. Havemos sempre de saber onde ele está, por norma exactamente onde o deixámos, e a única coisa que podemos fazer, é avançar, correr, puxar, arrastar se for preciso, a nossa vida para diante, e aproveitar-mo-nos da sua solidez de rocha para lhe ganhar distância.

Mas há mais que isso, é preciso um esforço genuíno, o passado não se deixa enganar facilmente e consegue perceber quando as tentativas de seguir com a nossa vida para frente, são feitas em círculos à sua volta. Atravessar meio mundo, e acabar a 40km's de onde morava a minha ex-namorada sob o pretexto de a tentar esquecer, não engana ninguém*. Continuar a trocar e-mails, mensagens e telefonemas, porque "queremos ficar amigos" a mesma coisa. Irmo-nos dando a quem aparece para matar saudades de quem não temos, também não vai funcionar, com a agravante de irmos magoando quem nunca nos magoou de volta nem teve culpa de ser apanhado no fogo cruzado. Talvez alguém que até gostava de nós de verdade e queria ajudar, na esperança que depois de deixar-mos o passado para trás, houvesse lugar para ela no que viesse depois.

Tem pouco mérito, sair do buraco onde estamos, passando por cima, empurrando para baixo quem nos puxou para fora dele, ou em avançar com a nossa vida, deixando para trás alguém que, por nos ajudar no presente a deixar para trás um passado de que não teve culpa, merecia um lugar no nosso futuro.
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